CONVERSAS QUE ALIVIAM: COMO NOVAS PERSPECTIVAS PODEM TRANSFORMAR O SOFRIMENTO PSÍQUICO

Todos nós já tivemos a experiência de sair de uma conversa sentindo que algo havia mudado, embora nada tivesse mudado externamente.

O problema permanecia o mesmo, a realidade continuava a existir, mas uma nova compreensão permitia habitá-la de outra maneira.

Na prática clínica, uma experiência se repete com frequência: aquilo que as pessoas dizem ser a origem de seu sofrimento nem sempre corresponde ao que verdadeiramente as faz sofrer. Muitas vezes, a dor se apresenta por meio de preocupações aparentemente secundárias, enquanto questões mais profundas permanecem ocultas.<

Algumas conversas, quando abrem percepções antes inacessíveis, favorecem reposicionamentos e, não raramente, produzem alívio para quem sofre. A pessoa passa a contar com um conteúdo, uma perspectiva ou uma compreensão que até então lhe estavam indisponíveis.

Esse ganho pode funcionar como um facilitador de mudanças, redirecionando fluxos mentais e permitindo novas formas de lidar com o sofrimento emocional.

Para deixar mais claro, exemplificarei.

Quando a preocupação aparente esconde outro medo

Fui chamado por um cirurgião para consultar um paciente que ele iria operar e que lhe estava dando muito trabalho: questionava-o repetidamente sobre como ficaria a cicatriz cirúrgica. Apesar das tentativas do médico em tranquilizá-lo, o paciente não se aquietava e mantinha a mesma indagação, demonstrando extrema aflição.

Ao encontrar esse senhor, já às vésperas da cirurgia, ele repetiu a pergunta:

— Como ficará a minha cicatriz cirúrgica?

Queria detalhes de algo que, para mim, parecia secundário para quem seria submetido a uma ampla e delicada intervenção. No entanto, depositava na ideia da cicatriz uma imensa carga de aflições.

Enquanto o ouvia, comecei a me perguntar por que um homem prestes a enfrentar uma cirurgia tão delicada parecia tão preocupado justamente com a marca que ficaria na pele.

Aos poucos, ocorreu-me que aquela preocupação talvez encobrisse um medo maior: a apreensão quanto ao resultado da cirurgia, quanto à própria sobrevivência.

Com isso em mente, fiz-lhe uma colocação que mudou o rumo da conversa.

Disse-lhe:

— Para haver uma cicatriz, é preciso estar vivo. Creio que sua preocupação não seja exatamente com a cicatriz, mas em saber se sobreviverá ou não. Nesse sentido, a cicatriz significa sobrevivência.

Apresentada dessa forma, a questão abriu a possibilidade de falar sobre seus medos e aflições, permitindo outro arranjo psíquico e criando espaço para lidar com suas legítimas preocupações diante da cirurgia.

Felizmente, a intervenção foi realizada com sucesso e a cicatriz se fez presente.

Quando a realização de um sonho traz surpresa

Outra situação.

Um paciente, homem próximo dos cinquenta anos, tinha, quando criança, grande fascinação pelos carros da Mercedes-Benz. Imaginava que aqueles que os possuíam eram pessoas bem-sucedidas, reconhecidas socialmente, com família, filhos e uma bela casa. Em sua fantasia infantil, o carro representava todo esse conjunto.

O deslumbramento permaneceu ao longo da vida até que, já maduro e gozando de boa condição financeira, resolveu adquirir uma Mercedes. Comprou um modelo esportivo conversível; enfim, o objeto de seu desejo.

Inicialmente sentiu-se empolgado. Porém, passados os primeiros dias, surgiu uma certa depressão, seguida de medo, de uma paranoia relacionada à possibilidade de ser assaltado e de um profundo desconforto ao dirigir.

Contou-me essa situação com espanto, sem entender o que acontecia. Afinal, imaginava que deveria estar muito feliz, talvez até eufórico, pela realização do antigo sonho.

Disse-lhe que o carro simbolizava, em sua infância, algo grandioso. Abrangia uma imensidão de elementos a ele associados, acrescidos da intensa vibração emocional característica das crianças e que não permanece da mesma forma na vida adulta.

Quando adquiriu o veículo, já havia conquistado aquilo que almejava em seus sonhos infantis: desfrutava de reconhecimento profissional, boa posição social, família constituída e uma moradia confortável.

Assim, a vibração da infância não reapareceu. A aquisição resumiu-se ao objeto em si, agora destituído dos inúmeros elementos que compunham sua fantasia. Essa experiência emocional manifestou-se como uma sensação de perda, desencadeando os sentimentos sombrios que o inundaram. Consciente agora das intrincadas tramas das fantasias, desfizeram-se as amarras e liberou-se o tráfego.

Quando os sentimentos são comunicados sem palavras

Um terceiro exemplo.

Adentra em meu consultório um paciente para uma sessão de análise. Deita-se no divã; eu me encontrava sentado atrás dele. Em seguida, com voz cavernosa e plena de raiva, diz cogitar matar-me. Relatava sentir intenso ódio dirigido a mim. Logo depois, levanta-se do divã e caminha para trás de minha poltrona, fora do meu alcance de visão.

Obviamente, fui tomado por grande apreensão e medo. Sem pensar, disse-lhe de bate-pronto:

— Falaremos sobre o meu medo ou sobre o seu?

Minha pergunta o redirecionou, por sorte, ao motivo de sua própria aflição. Retornou ao divã, deitou-se e expôs toda a sua angústia: estava ameaçado de perder o emprego e sentia-se aniquilado diante da possibilidade de que isso viesse a se efetivar.

A intensidade descrita acima representa uma situação extrema. Contudo, formas indiretas de comunicação do sofrimento são relativamente comuns na prática clínica. Muitas vezes, sentimentos que ainda não encontraram palavras acabam sendo transmitidos ao outro de maneiras diversas, exigindo atenção e escuta cuidadosas.

O sofrimento nem sempre está onde imaginamos

Situações como essas fazem-me pensar em algo que encontro repetidamente no trabalho com pessoas que procuram ajuda para seu sofrimento psíquico e emocional.

Nem sempre sofremos pelas razões que imaginamos.

A preocupação com uma cicatriz pode esconder o medo da morte.

A realização de um sonho pode trazer consigo o luto das fantasias que o sustentavam.

O ódio dirigido ao outro pode ocultar um medo de aniquilamento que ainda não encontrou palavras.

As pessoas frequentemente chegam falando de uma dor, mas é apenas aos poucos que outra questão, mais profunda, se torna visível.

Nos exemplos expostos, percebe-se como determinadas interpretações podem abrir novas possibilidades de compreensão, favorecendo rearranjos psíquicos e permitindo ao indivíduo reposicionar-se diante daquilo que o faz sofrer.

O papel da conversa no sofrimento emocional

A chamada "cura pela conversa", expressão historicamente associada ao nascimento da psicanálise, pode ser compreendida como a possibilidade de abrir novas perspectivas diante do sofrimento humano.

Quando se trata da saúde mental e da complexidade da vida psíquica, o objetivo não é apenas tornar consciente aquilo que estava oculto, mas permitir que a pessoa encontre uma maneira mais razoável de conduzir a própria vida.

Utilizando-me de uma formulação de Hipócrates:

"Aliviar a dor é uma obra divina."

Muitas vezes, aquilo que parecia insuportável não desaparece. O diagnóstico permanece, as perdas continuam existindo e a realidade não se altera.

O que pode mudar é a posição a partir da qual essa realidade é vivida.

Talvez seja essa uma das funções mais importantes da conversa: não eliminar as dores humanas, mas impedir que permaneçamos aprisionados à forma como as estávamos vivendo.

Certas conversas permanecem conosco por muitos anos. Não porque eliminem nossas dores, mas porque nos permitem habitá-las de outra maneira.

Às vezes, uma única frase não modifica a realidade. Mas pode transformar o lugar a partir do qual a realidade é vivida.

E, quando isso acontece, algo do sofrimento encontra alívio.

Próximo
Próximo

ALEXANDRE HORTA E SILVA PARTICIPA DO PROGRAMA EM DIA PARA DEBATER CULPA PARENTAL, LIMITES E EDUCAÇÃO DOS FILHOS