Roberta Ristori Roberta Ristori

ENVELHECIMENTO E SAÚDE MENTAL: O QUE SIGNIFICA FICAR INTEIRO?

A partir da reflexão “Ficar para trás é um jeito de ficar inteiro”, Alexandre Horta e Silva e Luciana Fortes conversam sobre envelhecimento e saúde mental, abordando perdas, identidade, autonomia, mudanças cognitivas e as possibilidades que permanecem abertas ao longo da maturidade.


O envelhecimento não acontece apenas no corpo. Ele modifica nossa relação com o tempo, com as próprias capacidades, com os lugares que ocupamos e, muitas vezes, com a imagem que construímos de nós mesmos ao longo da vida.

Vivemos mais, permanecemos ativos por mais tempo e atravessamos transformações tecnológicas, profissionais e sociais em uma velocidade que seria difícil imaginar algumas décadas atrás. Mas viver mais não significa permanecer igual.

Foi a partir dessas questões que Dr. Alexandre Horta e Silva, psiquiatra e psicanalista, e Luciana Fortes, psicóloga e neuropsicóloga, conversaram sobre envelhecimento e saúde mental em uma edição do quadro Conversas que Curam, veiculado no canal do Programa Em Dia.

A conversa teve como ponto de partida algumas das reflexões desenvolvidas por Alexandre no texto “Ficar para trás é um jeito de ficar inteiro”, publicado anteriormente em Textos e Reflexões, e ganhou novos caminhos a partir do encontro entre as perspectivas da psiquiatria, da psicanálise, da psicologia e da neuropsicologia.

→ [Ficar para trás é um jeito de ficar inteiro]

Assista à conversa sobre envelhecimento e saúde mental

Ao longo da conversa, Alexandre Horta e Silva e Luciana Fortes abordam diferentes dimensões do envelhecimento: mudanças cognitivas, tecnologia, aposentadoria, identidade, autonomia, atividade intelectual, solidão, sexualidade, psicoterapia, psiquiatria e a possibilidade de continuar construindo experiências significativas ao longo da vida. 

O que significa realmente “ficar para trás”?

A sensação de estar ficando para trás pode nascer de experiências bastante concretas.

A tecnologia avança em uma velocidade difícil de acompanhar. Filhos e netos dominam com naturalidade instrumentos que podem exigir esforço das gerações anteriores. O ritmo físico se modifica. Algumas tarefas passam a demandar mais tempo, atenção ou ajuda.

Durante a conversa, Alexandre chama a atenção para o risco de transformar essas diferenças em um julgamento sobre o próprio valor.

Reconhecer que já não temos determinada habilidade ou velocidade não significa perder aquilo que somos. O problema aparece quando uma dificuldade específica passa a ser interpretada como uma espécie de insuficiência global.

Luciana acrescenta outra dimensão: a própria convicção de que “não vou conseguir” pode impedir a tentativa. Encontrar outra maneira de aprender, pedir ajuda ou simplesmente realizar determinada tarefa em outro ritmo é muito diferente de considerar-se incapaz. 

Talvez, portanto, a primeira pergunta não seja simplesmente se estamos ficando para trás.

Atrás de quem — e de quê — acreditamos estar?

Envelhecer bem não significa continuar jovem

O aumento da longevidade trouxe consigo uma expectativa curiosa: não basta viver mais. Parece necessário permanecer produtivo, atualizado, fisicamente ativo e independente durante todo esse tempo.

Surge, assim, um novo ideal: o de “envelhecer bem”.

Mas o que significa exatamente envelhecer bem?

Na conversa, Alexandre propõe uma perspectiva menos idealizada: utilizar os recursos possíveis para aquele momento da vida.

Isso implica reconhecer limites sem transformá-los em impossibilidade.

O ritmo de uma viagem pode mudar. Uma atividade pode exigir mais tempo. Algumas decisões podem pedir ajuda. Certas capacidades se modificam enquanto outras, construídas pela experiência, podem tornar-se particularmente sofisticadas. 

O problema talvez comece quando exigimos do envelhecimento uma continuidade impossível da juventude.

Não precisamos disputar todas as corridas

Um dos momentos mais interessantes da conversa surge quando Alexandre utiliza uma imagem bastante direta:

“A gente não deve brigar no terreno do inimigo.”

Ao envelhecer, tentar competir com os mais jovens exatamente nos atributos favorecidos pela juventude — velocidade, determinadas performances físicas ou familiaridade imediata com certas novidades — pode produzir uma comparação inevitavelmente desfavorável.

Mas esse não é o único terreno possível.

Décadas de experiência podem proporcionar repertório, capacidade de reconhecer situações já vividas, julgamento e uma percepção mais sofisticada de problemas complexos.

O próprio Alexandre recorre à sua experiência médica: algumas capacidades físicas evidentemente já não são as mesmas, enquanto a possibilidade de compreender rapidamente determinadas situações clínicas tornou-se muito maior ao longo dos anos. 

Talvez ficar inteiro também dependa de reconhecer em que terreno ainda faz sentido jogar.

Aceitar as perdas sem tornar-se aquilo que foi perdido

Envelhecer envolve perdas reais.

Negá-las produziria uma visão tão distorcida quanto enxergar a velhice exclusivamente como decadência.

Durante a conversa, surge uma distinção fundamental: aceitar que houve uma perda não significa permitir que essa perda resuma tudo aquilo que uma pessoa é.

Essa diferença aparece em situações muito diversas: aposentadoria, alterações físicas, mudanças cognitivas, saída dos filhos de casa, necessidade crescente de ajuda ou abandono de atividades que durante décadas fizeram parte da identidade.

A aposentadoria é um exemplo particularmente significativo.

Para algumas pessoas, representa liberdade. Para outras, pode retirar abruptamente uma estrutura que organizava não apenas os dias, mas também a identidade, os vínculos sociais, o reconhecimento e a sensação de utilidade.

Alexandre chama a atenção, por isso, para a importância de que alguma coisa significativa possa ocupar o espaço deixado pelo trabalho: não simplesmente uma forma de preencher o tempo, mas algo capaz de continuar produzindo interesse, troca e investimento emocional. 

Perder um papel não precisa significar perder quem somos.

Continuar aprendendo é também continuar participando do mundo

Outro eixo importante da conversa é a relação entre envelhecimento, atividade cognitiva e participação na vida.

Ler, aprender, conversar, trocar ideias, interessar-se por assuntos novos e manter contato com outras pessoas são formas de permanecer em relação com o mundo.

Alexandre relata conviver com pessoas consideravelmente mais velhas que permanecem intelectualmente muito ativas, lendo, pensando e trocando ideias.

Luciana, a partir da neuropsicologia, amplia essa reflexão ao abordar a importância da atividade cognitiva e da adaptação das experiências às possibilidades de cada pessoa. 

Não se trata de negar que algumas capacidades possam se modificar.

A pergunta talvez seja outra:

Com aquilo que tenho hoje, de que maneira posso continuar interessado pela vida?

A liberdade de não precisar provar tanto

Se existem perdas associadas ao envelhecimento, existem também liberdades que podem surgir justamente com o passar do tempo.

Durante muitos anos, construímos carreira, relações e uma posição no mundo. Queremos ser vistos, reconhecidos e aprovados. Precisamos demonstrar competência e encontrar nosso lugar.

Em algum momento, essa necessidade pode diminuir.

A pessoa conhece melhor suas capacidades e seus limites. Um elogio continua sendo agradável, mas já não precisa funcionar como confirmação permanente de seu próprio valor.

Alexandre resume essa possibilidade em uma frase:

“Você já não tem que provar mais nada. Você tem simplesmente que atuar.”

Essa liberdade pode aparecer na maneira de falar, escolher relações, estabelecer prioridades e abandonar protocolos que anteriormente pareciam indispensáveis.

Talvez uma parte importante de envelhecer seja descobrir o que já podemos deixar de carregar.

Envelhecer não precisa ser leve

Em outro momento da conversa, surge uma pergunta sobre como levar com leveza o envelhecimento e a possibilidade da finitude.

Alexandre contesta a própria premissa:

“Eu não acho que seja uma situação leve.”

Há perdas, limitações, doenças e uma consciência progressivamente mais concreta da finitude. Transformar tudo isso em um discurso exclusivamente positivo pode significar negar uma parte importante da experiência humana.

A alternativa proposta por ele não é a leveza, mas a coragem.

Coragem para reconhecer aquilo que mudou. Para adaptar-se ao que agora é possível. Para continuar fazendo o que ainda pode ser feito. E para não exigir de si um ritmo incompatível com o momento da vida. 

Nesse sentido, aceitar não significa desistir.

Significa reconhecer a realidade sem permitir que ela encerre antecipadamente as possibilidades que ainda permanecem abertas.

Há experiências que só se tornam possíveis mais tarde

A conversa também ajuda a desfazer outra imagem recorrente da velhice: a ideia de que ela seria apenas uma sucessão de encerramentos.

Ao falar de sua experiência clínica, Alexandre observa que atende pessoas com mais de 70 anos cujas questões não se restringem a perdas, doenças ou limitações.

Existem também novas relações, viagens, projetos, descobertas e experiências que não haviam sido possíveis anteriormente.

Em um dos exemplos mencionados durante a conversa, um homem que havia perdido a esposa iniciou posteriormente uma nova relação e passou a experimentar uma vida afetiva e sexual intensa, além de viajar e realizar atividades que antes não faziam parte de sua vida. 

É um contraponto importante à ideia de que determinada idade determina, por si só, o encerramento da vida afetiva, da sexualidade ou da possibilidade de transformação.

A existência não termina quando uma etapa termina.

Pode simplesmente adquirir outra configuração.

O que significa, afinal, ficar inteiro?

Talvez ficar inteiro não signifique conservar intacto tudo aquilo que fomos.

O corpo muda. As capacidades se transformam. Papéis que durante décadas pareciam inseparáveis de nossa identidade podem desaparecer. Algumas possibilidades se encerram.

Outras, porém, podem surgir.

A questão central talvez esteja em conseguir distinguir aquilo que estamos perdendo daquilo que somos.

Foi justamente esse o ponto de partida do texto que deu origem à conversa: em determinadas etapas da vida, deixar de acompanhar algumas corridas pode não representar fracasso.

Pode significar reconhecer que já não precisamos disputá-las.

E que permanecer inteiro talvez não dependa de chegar antes, mas de continuar encontrando uma maneira própria de estar no mundo.

Para continuar a reflexão

A conversa nasceu das questões desenvolvidas por Alexandre Horta e Silva em “Ficar para trás é um jeito de ficar inteiro”, texto no qual propõe uma reflexão sobre a cultura da velocidade, as perdas associadas ao envelhecimento e a possibilidade de abandonar algumas corridas sem transformar essa escolha em fracasso.

→ [Leia “Ficar para trás é um jeito de ficar inteiro”]


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FICAR PARA TRÁS É UM JEITO DE FICAR INTEIRO

Tenho ouvido, com frequência, pessoas dizerem que sentem estar "ficando para trás". Mas será que esse sofrimento nasce realmente do envelhecimento? Neste texto, proponho outra perspectiva: talvez a maior dificuldade não seja envelhecer, mas tentar continuar vivendo segundo os critérios de uma sociedade que transformou a velocidade em virtude. Em determinadas fases da vida, abandonar algumas corridas pode não significar desistir, mas preservar aquilo que temos de mais valioso: nossa integridade.

Tenho ouvido com frequência, no consultório, uma frase que há alguns anos aparecia muito menos.

"Doutor, sinto que estou ficando para trás."

Quem a pronuncia quase nunca está falando apenas da idade. Fala da dificuldade de acompanhar os filhos e os netos, das novas tecnologias, da rapidez das mudanças, da sensação de que o mundo continua acelerando enquanto ela própria já não consegue manter o mesmo ritmo.

Ao longo do tempo, fui percebendo que, muitas vezes, o sofrimento não nasce exatamente do envelhecimento. Ele surge do encontro entre o ritmo próprio dessa etapa da vida e uma cultura que transformou a velocidade em virtude.

Espera-se que estejamos sempre atualizados, produtivos, adaptáveis e permanentemente disponíveis para acompanhar as mudanças do mundo. Nesse cenário, envelhecer costuma ser percebido como uma experiência de perda: perde-se agilidade, capacidade física, rapidez para aprender novas tecnologias e, muitas vezes, espaços antes ocupados na vida profissional e social.

É justamente nesse contexto que proponho uma reflexão aparentemente paradoxal: ficar para trás é um jeito de ficar inteiro.

À primeira vista, a frase pode soar conformista, como se fosse um convite à resignação diante do envelhecimento. Não é disso que se trata. Ao contrário, ela sugere uma mudança profunda de perspectiva. Nem sempre permanecer atrás significa fracassar. Em determinadas fases da vida, deixar de participar de certas corridas representa uma forma de preservar aquilo que temos de mais valioso: nossa integridade psíquica.

Talvez o problema não seja caminhar mais devagar.

Talvez o problema seja viver em uma sociedade que passou a considerar a velocidade um valor moral.

Desde muito cedo somos ensinados a medir nossa vida por comparações. Quem chegou primeiro? Quem produziu mais? Quem continua sendo admirado? Quem ainda acompanha o ritmo das transformações? São perguntas compreensíveis em uma sociedade organizada em torno da competição, mas insuficientes para compreender o significado da longevidade.

A partir dos setenta anos, muitas pessoas passam a experimentar uma mudança silenciosa. O mundo continua acelerando enquanto elas, por razões naturais, caminham em outro ritmo. Algumas vivem essa experiência com serenidade; outras a interpretam como sinal de decadência ou inutilidade. É nesse ponto que frequentemente surgem sentimentos de tristeza, ansiedade, desvalorização e solidão.

Como psiquiatra e psicanalista, tenho observado que grande parte do sofrimento nessa etapa da vida não decorre apenas das mudanças impostas pelo corpo ou pelo tempo. Ele nasce, sobretudo, do conflito entre o ritmo próprio do envelhecimento e a expectativa social de que todos permaneçam jovens, rápidos e permanentemente produtivos.

Há pessoas que chegam ao consultório dizendo:

— Não consigo mais acompanhar meus filhos.

Outras afirmam:

— Sinto que o mundo ficou rápido demais para mim.

Algumas lamentam que já não possuam a mesma energia de antes.

Quase sempre essas falas vêm acompanhadas de uma conclusão injusta:

— Estou ficando para trás.

Mas ficar para trás em relação a quem?

Aos filhos? À tecnologia? Ao mercado de trabalho? À juventude? Ou a uma imagem idealizada que aprendemos a perseguir durante toda a vida?

Mas será que essa é a única maneira de compreender o que está acontecendo?

A experiência clínica frequentemente mostra outra possibilidade. Muitas vezes, aquilo que a pessoa chama de atraso representa, na verdade, uma reorganização da existência. Ela já não precisa provar tanto. Já não necessita responder a todas as demandas. Descobre que pode escolher melhor onde investir sua energia física e emocional. Aprende, pouco a pouco, que dizer "não" pode ser tão importante quanto dizer "sim".

Em outras palavras, ficar para trás em algumas corridas pode significar permanecer inteiro.

A identidade quando as antigas referências desaparecem

A psicanálise oferece uma contribuição preciosa para essa compreensão. Ela nos convida a abandonar a lógica da comparação para recuperar a singularidade da experiência humana. Cada pessoa envelhece de maneira única. Não existe um modelo ideal de velhice, assim como não existe um único modo de viver bem.

Durante décadas, muitos indivíduos organizaram sua identidade em torno do trabalho, da criação dos filhos, do reconhecimento profissional ou da intensa atividade social. Quando essas referências diminuem, pode surgir uma pergunta inquietante:

— Quem sou eu agora?

Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis do envelhecimento. Enquanto somos definidos pelas funções que exercemos, raramente precisamos formulá-la. Ela costuma aparecer justamente quando a vida nos convida a deixar alguns papéis para descobrir quem permanece quando eles já não nos definem da mesma maneira.

Responder a essa pergunta exige muito mais do que manter-se ocupado. Exige elaborar perdas, revisar a própria história, reconhecer limites sem transformá-los em derrotas e descobrir novas formas de investir na vida.

A elaboração das perdas

É justamente nesse trabalho de elaboração que a psicanálise pode ser extremamente valiosa. Ela não pretende apagar o sofrimento inerente ao envelhecimento, mas ajudá-lo a adquirir significado. Aquilo que parecia apenas perda pode transformar-se em oportunidade de reconciliação consigo mesmo.

A experiência mostra que envelhecer não exige apenas adaptar-se às limitações do corpo. Exige também despedir-se de versões anteriores de si mesmo. Há um luto pela força física, pela rapidez, por determinados papéis sociais e, em muitos casos, pela imagem que durante décadas sustentou nossa identidade. Elaborar essas perdas não significa resignar-se a elas, mas permitir que deixem de ocupar o centro da existência.

Entre a doença e a condição humana

A psiquiatria também desempenha um papel fundamental nesse processo. Nem toda tristeza faz parte do envelhecimento normal. Depressão, transtornos de ansiedade, alterações do sono, comprometimentos cognitivos iniciais e outras condições clínicas são frequentes nessa faixa etária e merecem avaliação cuidadosa. Muitas vezes, sintomas considerados "naturais da idade" escondem doenças tratáveis que comprometem significativamente a qualidade de vida.

Ao mesmo tempo, é importante evitar o equívoco oposto: medicalizar toda experiência de envelhecimento. Há sofrimentos que pertencem à condição humana e que pedem escuta antes de pedirem medicamentos. A boa prática psiquiátrica consiste justamente em distinguir aquilo que exige tratamento biológico daquilo que necessita de compreensão, elaboração e tempo.

Talvez um dos maiores desafios da clínica contemporânea seja exatamente esse: reconhecer quando o sofrimento decorre de uma doença e quando ele representa uma resposta humana diante das inevitáveis transformações da vida.

Nem toda dor deve ser silenciada. Algumas precisam, antes de tudo, ser compreendidas.

Por isso considero que psiquiatria e psicanálise não competem entre si; ao contrário, frequentemente se complementam. Em alguns casos, um tratamento medicamentoso bem indicado devolve ao paciente as condições emocionais necessárias para realizar um trabalho psicoterápico mais profundo. Em outros, a compreensão psicanalítica permite que sintomas antes considerados exclusivamente médicos revelem conflitos existenciais que merecem ser escutados.

O importante não é defender uma abordagem em detrimento da outra, mas oferecer à pessoa aquilo de que ela realmente necessita.

A liberdade que a maturidade pode oferecer

Envelhecer também oferece ganhos frequentemente esquecidos. A experiência amplia a capacidade de relativizar conflitos, reconhecer prioridades e distinguir o essencial do acessório.

Muitas vezes, esses ganhos não aparecem porque continuamos olhando para a velhice com os olhos da juventude. Mede-se aquilo que já não se faz, e não aquilo que finalmente deixou de ser necessário fazer.

Muitas pessoas descobrem, nessa etapa da vida, uma liberdade que nunca haviam experimentado. Já não precisam corresponder às expectativas de todos. Já não vivem exclusivamente em função do olhar alheio.

Curiosamente, essa liberdade costuma nascer justamente daquilo que antes parecia perda. Quando diminui a necessidade de provar valor, cresce a possibilidade de viver de maneira mais autêntica.

Talvez essa seja uma das maiores conquistas da maturidade: deixar de perseguir uma imagem idealizada de si para aceitar, com serenidade, a pessoa que efetivamente se tornou.

É claro que esse percurso nem sempre é simples. Há perdas reais, lutos dolorosos, limitações físicas e mudanças inevitáveis. Negar essas dificuldades seria desrespeitar a realidade. Entretanto, reduzir o envelhecimento apenas ao declínio também significa ignorar sua riqueza humana.

A velhice não é apenas um tempo em que algumas possibilidades se encerram. É também um tempo em que outras se tornam finalmente possíveis.

A longevidade não representa apenas mais anos de vida. Ela oferece a possibilidade de integrar a própria história, reconciliar-se com escolhas passadas, elaborar arrependimentos, fortalecer vínculos afetivos e construir uma relação mais pacífica consigo mesmo.

Ficar para trás para permanecer inteiro

Quando afirmo que ficar para trás é um jeito de ficar inteiro, não estou propondo um elogio da passividade. Estou sugerindo que existe uma sabedoria própria do envelhecimento: a capacidade de abandonar corridas que já perderam o sentido para preservar aquilo que realmente importa.

Talvez a verdadeira tarefa da velhice não seja permanecer jovem, mas tornar-se cada vez mais humano.

Existe uma diferença importante entre continuar vivo e continuar correndo.

Muitas pessoas permanecem correndo mesmo quando já não sabem exatamente para onde desejam ir.

O sentido de continuar vivendo

Se, ao longo desse caminho, surgirem sofrimento emocional, angústia, depressão, ansiedade, dificuldades de adaptação ou o sentimento persistente de que a vida perdeu o sentido, buscar ajuda não é sinal de fraqueza. É uma forma de cuidado consigo mesmo.

Ao longo de minha trajetória como psiquiatra e psicanalista, tenho acompanhado muitas pessoas que atravessam essa etapa da vida. Em comum, elas trazem uma pergunta que raramente é formulada de maneira explícita:

— Como continuar vivendo com sentido quando já não preciso disputar todas as corridas?

Acredito que essa pergunta não possui uma resposta pronta. Ela precisa ser construída por cada pessoa, em seu próprio tempo, por meio da escuta, da reflexão e do reconhecimento de sua história singular.

Porque há momentos em que a maior conquista não consiste em chegar antes dos outros.

Consiste em chegar a si mesmo inteiro.

A reflexão continua em vídeo

Depois de publicar este texto, tive a oportunidade de retomar algumas dessas questões em uma conversa com Luciana Fortes, psicóloga e neuropsicóloga, no quadro Conversas que Curam, veiculado no canal do Programa Em Dia.

Partimos da ideia de “ficar para trás”, mas a conversa nos levou também a outros aspectos do envelhecimento: autonomia, mudanças cognitivas, aposentadoria, tecnologia, identidade, perdas e as possibilidades que permanecem abertas ao longo da vida.

O tema também foi discutido no programa “Em Dia”, com a Dra. Luciana Fortes.

Para aprofundar: os principais temas desenvolvidos durante a conversa estão reunidos também em Envelhecimento e saúde mental: o que significa ficar inteiro?.

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CONVERSAS QUE ALIVIAM: COMO NOVAS PERSPECTIVAS PODEM TRANSFORMAR O SOFRIMENTO PSÍQUICO

Ao longo da minha prática clínica, tenho observado que aquilo que as pessoas apresentam como origem de seu sofrimento nem sempre corresponde ao que verdadeiramente as faz sofrer. Por meio de três experiências marcantes, reflito sobre como determinadas conversas podem abrir novas perspectivas, favorecer rearranjos psíquicos e permitir formas mais razoáveis de conduzir a própria vida. Afinal, algumas conversas não mudam a realidade, mas podem transformar profundamente a maneira como a vivemos.

Todos nós já tivemos a experiência de sair de uma conversa sentindo que algo havia mudado, embora nada tivesse mudado externamente.

O problema permanecia o mesmo, a realidade continuava a existir, mas uma nova compreensão permitia habitá-la de outra maneira.

Na prática clínica, uma experiência se repete com frequência: aquilo que as pessoas dizem ser a origem de seu sofrimento nem sempre corresponde ao que verdadeiramente as faz sofrer. Muitas vezes, a dor se apresenta por meio de preocupações aparentemente secundárias, enquanto questões mais profundas permanecem ocultas.

Algumas conversas, quando abrem percepções antes inacessíveis, favorecem reposicionamentos e, não raramente, produzem alívio para quem sofre. A pessoa passa a contar com um conteúdo, uma perspectiva ou uma compreensão que até então lhe estavam indisponíveis.

Esse ganho pode funcionar como um facilitador de mudanças, redirecionando fluxos mentais e permitindo novas formas de lidar com o sofrimento emocional.

Para deixar mais claro, exemplificarei.

Quando a preocupação aparente esconde outro medo

Fui chamado por um cirurgião para consultar um paciente que ele iria operar e que lhe estava dando muito trabalho: questionava-o repetidamente sobre como ficaria a cicatriz cirúrgica. Apesar das tentativas do médico em tranquilizá-lo, o paciente não se aquietava e mantinha a mesma indagação, demonstrando extrema aflição.

Ao encontrar esse senhor, já às vésperas da cirurgia, ele repetiu a pergunta:

— Como ficará a minha cicatriz cirúrgica?

Queria detalhes de algo que, para mim, parecia secundário para quem seria submetido a uma ampla e delicada intervenção. No entanto, depositava na ideia da cicatriz uma imensa carga de aflições.

Enquanto o ouvia, comecei a me perguntar por que um homem prestes a enfrentar uma cirurgia tão delicada parecia tão preocupado justamente com a marca que ficaria na pele.

Aos poucos, ocorreu-me que aquela preocupação talvez encobrisse um medo maior: a apreensão quanto ao resultado da cirurgia, quanto à própria sobrevivência.

Com isso em mente, fiz-lhe uma colocação que mudou o rumo da conversa.

Disse-lhe:

— Para haver uma cicatriz, é preciso estar vivo. Creio que sua preocupação não seja exatamente com a cicatriz, mas em saber se sobreviverá ou não. Nesse sentido, a cicatriz significa sobrevivência.

Apresentada dessa forma, a questão abriu a possibilidade de falar sobre seus medos e aflições, permitindo outro arranjo psíquico e criando espaço para lidar com suas legítimas preocupações diante da cirurgia.

Felizmente, a intervenção foi realizada com sucesso e a cicatriz se fez presente.

Quando a realização de um sonho traz surpresa

Outra situação.

Um paciente, homem próximo dos cinquenta anos, tinha, quando criança, grande fascinação pelos carros da Mercedes-Benz. Imaginava que aqueles que os possuíam eram pessoas bem-sucedidas, reconhecidas socialmente, com família, filhos e uma bela casa. Em sua fantasia infantil, o carro representava todo esse conjunto.

O deslumbramento permaneceu ao longo da vida até que, já maduro e gozando de boa condição financeira, resolveu adquirir uma Mercedes. Comprou um modelo esportivo conversível; enfim, o objeto de seu desejo.

Inicialmente sentiu-se empolgado. Porém, passados os primeiros dias, surgiu uma certa depressão, seguida de medo, de uma paranoia relacionada à possibilidade de ser assaltado e de um profundo desconforto ao dirigir.

Contou-me essa situação com espanto, sem entender o que acontecia. Afinal, imaginava que deveria estar muito feliz, talvez até eufórico, pela realização do antigo sonho.

Disse-lhe que o carro simbolizava, em sua infância, algo grandioso. Abrangia uma imensidão de elementos a ele associados, acrescidos da intensa vibração emocional característica das crianças e que não permanece da mesma forma na vida adulta.

Quando adquiriu o veículo, já havia conquistado aquilo que almejava em seus sonhos infantis: desfrutava de reconhecimento profissional, boa posição social, família constituída e uma moradia confortável.

Assim, a vibração da infância não reapareceu. A aquisição resumiu-se ao objeto em si, agora destituído dos inúmeros elementos que compunham sua fantasia. Essa experiência emocional manifestou-se como uma sensação de perda, desencadeando os sentimentos sombrios que o inundaram. Consciente agora das intrincadas tramas das fantasias, desfizeram-se as amarras e liberou-se o tráfego.

Quando os sentimentos são comunicados sem palavras

Um terceiro exemplo.

Adentra em meu consultório um paciente para uma sessão de análise. Deita-se no divã; eu me encontrava sentado atrás dele. Em seguida, com voz cavernosa e plena de raiva, diz cogitar matar-me. Relatava sentir intenso ódio dirigido a mim. Logo depois, levanta-se do divã e caminha para trás de minha poltrona, fora do meu alcance de visão.

Obviamente, fui tomado por grande apreensão e medo. Sem pensar, disse-lhe de bate-pronto:

— Falaremos sobre o meu medo ou sobre o seu?

Minha pergunta o redirecionou, por sorte, ao motivo de sua própria aflição. Retornou ao divã, deitou-se e expôs toda a sua angústia: estava ameaçado de perder o emprego e sentia-se aniquilado diante da possibilidade de que isso viesse a se efetivar.

A intensidade descrita acima representa uma situação extrema. Contudo, formas indiretas de comunicação do sofrimento são relativamente comuns na prática clínica. Muitas vezes, sentimentos que ainda não encontraram palavras acabam sendo transmitidos ao outro de maneiras diversas, exigindo atenção e escuta cuidadosas.

O sofrimento nem sempre está onde imaginamos

Situações como essas fazem-me pensar em algo que encontro repetidamente no trabalho com pessoas que procuram ajuda para seu sofrimento psíquico e emocional.

Nem sempre sofremos pelas razões que imaginamos.

A preocupação com uma cicatriz pode esconder o medo da morte.

A realização de um sonho pode trazer consigo o luto das fantasias que o sustentavam.

O ódio dirigido ao outro pode ocultar um medo de aniquilamento que ainda não encontrou palavras.

As pessoas frequentemente chegam falando de uma dor, mas é apenas aos poucos que outra questão, mais profunda, se torna visível.

Nos exemplos expostos, percebe-se como determinadas interpretações podem abrir novas possibilidades de compreensão, favorecendo rearranjos psíquicos e permitindo ao indivíduo reposicionar-se diante daquilo que o faz sofrer.

O papel da conversa no sofrimento emocional

A chamada "cura pela conversa", expressão historicamente associada ao nascimento da psicanálise, pode ser compreendida como a possibilidade de abrir novas perspectivas diante do sofrimento humano.

Quando se trata da saúde mental e da complexidade da vida psíquica, o objetivo não é apenas tornar consciente aquilo que estava oculto, mas permitir que a pessoa encontre uma maneira mais razoável de conduzir a própria vida.

Utilizando-me de uma formulação de Hipócrates:

"Aliviar a dor é uma obra divina."

Muitas vezes, aquilo que parecia insuportável não desaparece. O diagnóstico permanece, as perdas continuam existindo e a realidade não se altera.

O que pode mudar é a posição a partir da qual essa realidade é vivida.

Talvez seja essa uma das funções mais importantes da conversa: não eliminar as dores humanas, mas impedir que permaneçamos aprisionados à forma como as estávamos vivendo.

Certas conversas permanecem conosco por muitos anos. Não porque eliminem nossas dores, mas porque nos permitem habitá-las de outra maneira.

Às vezes, uma única frase não modifica a realidade. Mas pode transformar o lugar a partir do qual a realidade é vivida.

E, quando isso acontece, algo do sofrimento encontra alívio.

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