A MODA DOS DIAGNÓSTICOS NA MEDICINA: ENTRE CIÊNCIA, COMPORTAMENTO E SUBJETIVIDADE
Os diagnósticos médicos não estão imunes às tendências do seu tempo. Entre a classificação e a experiência singular do paciente, a prática clínica se constrói no espaço da escuta.
Tenho visto filmes que despejam uma enxurrada de propaganda de todo tipo de produto, como, por exemplo, roupas, vinhos, carros, sapatos e até medicações. Além dos produtos, há também a propaganda de comportamentos, isto é, de como e com quem podemos nos relacionar, incentivando práticas das quais não tenho nada contra. Porém, quero me ater à propaganda maciça lançada sobre nós, que se transforma em moda — e a moda dita as nossas vidas, por mais que queiramos acreditar no contrário.
A nossa escolha de qualquer coisa, falando de forma mais genérica, está influenciada pela divulgação direta, quando vemos o produto ou comportamento explicitamente, ou quando, de forma indireta, recebemos o conteúdo de maneira mais sutil.
Pensando na ciência — mais especificamente nos diagnósticos em medicina — quero chamar a atenção para a questão da moda.
Diagnósticos médicos e influência de tendências
Os diagnósticos médicos, por mais isentos que devessem ser, seguem, muitas vezes, movimentos que se aproximam de tendências. O interesse econômico e de poder rege o mundo e também atravessa a ciência médica. Quando, por exemplo, determinada medicação precisa ser amplamente utilizada, cria-se, direta ou indiretamente, um ambiente propício à legitimação de diagnósticos que sustentem o seu uso.
Além da aplicação lícita, embasada em critérios clínicos consistentes, há também um campo mais difuso, em que determinadas indicações se expandem para além de seus limites mais claros. Quando nos é dito que tal medicação pode ter efeitos desejáveis — como perda de peso ou melhora da potência sexual — é inevitável que se amplie o interesse pelo produto.
Os efeitos colaterais, por sua vez, também podem funcionar como forma indireta de divulgação, ampliando a circulação de informações sobre determinado fármaco.
Comportamento, trabalho e medicalização
Voltando à questão do comportamento, gostaria de me deter em um ponto frequente na prática clínica: a relação do indivíduo com o trabalho.
Hoje, já não encontramos com facilidade termos coloquiais como “vagabundo”, que em outros tempos eram utilizados de maneira direta — ainda que muitas vezes carregados de julgamento. Em seu lugar, observa-se, em alguns casos, uma tendência à tradução imediata de determinadas posições subjetivas em categorias diagnósticas.
Sem negar a existência, a relevância e, em muitos casos, a gravidade de quadros como o TDAH — Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade — ou o TEA — Transtorno do Espectro Autista —, é possível observar também situações em que o diagnóstico aparece menos como resultado de um processo clínico rigoroso e mais como uma resposta rápida a impasses da vida cotidiana.
Não implica que o sofrimento envolvido nessas situações seja menor ou irrelevante — ao contrário, muitas vezes é justamente ele que leva o sujeito a procurar ajuda.
Há, portanto, um campo delicado, no qual se torna necessário distinguir entre o sofrimento psíquico propriamente dito e determinadas formas de posicionamento diante da vida — entre elas, a dificuldade, a recusa ou o desinteresse pelo trabalho.
Se conseguirmos nos afastar, ainda que momentaneamente, do peso moral e social envolvido nessa questão, poderíamos considerar que nem toda recusa ao trabalho corresponde, necessariamente, a um quadro patológico.
Quero deixar claro que me refiro a situações específicas que observo em consultório: pessoas de diferentes idades que recorrem à linguagem médica para explicar, ou por vezes justificar, modos de vida que não se enquadram nas expectativas sociais mais comuns.
Uma consulta diferente
O caso a seguir não pretende representar a totalidade das situações clínicas. Fui surpreendido, certa vez, por um jovem adulto de 23 anos que veio a uma consulta por pressão de sua família, inconformada com sua recusa em trabalhar.
Tivemos uma conversa insólita, dada a explicitude de sua fala. Exporei um pequeno trecho de nosso diálogo.
Paciente: Doutor, eu sou vagabundo. Não gosto de trabalhar, não gosto de livros. Ser mantido pela minha família é o que desejo — afinal, há dinheiro de sobra — e eu quero viver assim. Tenho as minhas aflições, mas a falta de trabalho não é uma delas.
Alexandre: Você é muito direto. Parece-me pouco preocupado com a sua imagem.
Paciente: Não mesmo. Esse tempo já passou. Eu não quero, diante de um médico, mentir a meu respeito. Sou o que sou.
Alexandre: É uma excelente ideia.
Paciente: Querem que o senhor me dê uma medicação para me curar da minha “vagabundagem”. Parece com a ideia da “cura gay”: o sujeito é homossexual e pronto — não há nada a curar.
Alexandre: Cada um é cada um, com as suas próprias condições. É assim, não é?
Paciente: Ótimo. O senhor é o primeiro a me dizer isso. Eu insisto: não sou deprimido, nem ansioso, nem tenho crises de pânico. Apenas tento manter a minha vida dentro do possível, desfrutando prazeres.
Alexandre: Quando você diz “dentro do possível”, entendo que há algo fora do possível, certo?
Paciente: Sim. As brigas com a minha família, com a minha namorada… Aí saio do conforto e entro no desprazer — mas isso eu aceito. Enfim, não quero que fiquem no meu pé, me pressionando. Obviamente, seria mais fácil se eu quisesse ou gostasse de trabalhar.
Alexandre: Você não considera a possibilidade de fazer algo dentro da faixa do prazer, mas que possa retirá-lo dessa pecha?
Paciente: Eu gosto de cozinhar. Pego uma receita, faço, e fica bom — dá certo, é um talento. Mas não quero ter um restaurante, como já me sugeriram.
Alexandre: Eu não tenho o menor interesse em transformá-lo num trabalhador. Como você veio até aqui, estou apenas tentando entender a situação.
Paciente: O senhor já entendeu — senão, estaria sendo moralista.
Alexandre: Isso é bom. Além de conversar, para melhor conhecê-lo, não tenho nenhuma proposta de medicação ou de oferecer-lhe um diagnóstico que abarque essa condição.
Paciente: Ah, que bom. Isso abre caminho para eu lhe falar das minhas receitas — fala jocosamente.
Alexandre: Interesso-me por isso — falei, sorrindo.
Paciente: Será uma ducha de água fria sobre minha mãe e minha avó. Quem sabe elas se convençam de que não sou doente — só não quero trabalhar.
Entre diagnóstico e escuta clínica
A prática clínica, nesses casos, não se orienta pela necessidade de enquadrar o sujeito em um diagnóstico, mas pela escuta do que, de fato, está em jogo em sua relação com a própria vida.
Nem tudo o que escapa às expectativas sociais é, necessariamente, patológico. Tampouco todo sofrimento pode ser resolvido por meio de uma classificação diagnóstica ou de uma prescrição medicamentosa.
Entre a patologização excessiva e a negação do sofrimento, há um campo mais exigente — e mais propriamente clínico — que demanda escuta, tempo e discernimento.
Isso não significa desconsiderar o sofrimento de quem procura ajuda, nem ignorar diagnósticos já estabelecidos. Ao contrário: significa tomá-los como ponto de partida, e não como ponto de chegada.
Muitas das situações que chegam ao consultório não são exceções isoladas, mas experiências que se repetem, cada uma à sua maneira, em diferentes trajetórias de vida.
Cada paciente traz consigo uma história, uma forma própria de sofrimento e também uma maneira singular de se posicionar diante da vida. É nesse espaço que o trabalho clínico se constrói — não na aplicação automática de categorias, mas na tentativa de compreender o que, para aquele sujeito, está em jogo.
Implica reconhecer que o sofrimento, mesmo quando não se organiza imediatamente em um diagnóstico preciso, não deixa de exigir atenção e cuidado.
Em alguns casos, haverá indicação de medicação; em outros, não. Em todos, no entanto, há a possibilidade de um trabalho clínico orientado, que não reduza a experiência humana a um rótulo, mas que também não a abandone à própria deriva.
PSIQUIATRA, PSICANALISTA E PSICÓLOGO: QUAIS SÃO AS DIFERENÇAS NA PRÁTICA CLÍNICA
No campo da saúde mental, diferentes formações implicam diferentes formas de escuta e intervenção. Este texto esclarece o que distingue psiquiatria, psicologia e psicanálise na prática clínica.
No campo da saúde mental, termos como psiquiatra, psicólogo e psicanalista são frequentemente utilizados como se designassem o mesmo tipo de profissional. Na prática, porém, correspondem a formações distintas e a modos diferentes de compreender e conduzir o trabalho clínico.
Essa distinção nem sempre é clara para quem procura atendimento. Muitas pessoas iniciam um acompanhamento sem saber exatamente qual abordagem corresponde melhor à sua demanda, ou sem compreender as possibilidades de trabalho que cada campo oferece.
Compreender as diferenças entre essas formações não significa estabelecer hierarquias entre elas. Cada uma possui métodos, limites e campos de atuação próprios. Conhecer essas particularidades ajuda a orientar melhor a escolha do tipo de acompanhamento e contribui para uma relação clínica mais clara desde o início.
O que faz um psiquiatra
O psiquiatra é um médico especializado no cuidado da saúde mental. Sua formação começa na medicina e inclui treinamento específico para reconhecer, diagnosticar e tratar diferentes quadros clínicos relacionados ao sofrimento psíquico, emocional e comportamental.
Na prática clínica, o psiquiatra avalia sintomas, acompanha a evolução do quadro e pode indicar diferentes formas de tratamento. Entre essas possibilidades está a prescrição de medicamentos, quando considerada necessária para o manejo de determinados fenômenos clínicos.
A psiquiatria possui um papel importante sobretudo em situações que envolvem:
sofrimento intenso
crises emocionais graves
alterações significativas do funcionamento psíquico
quadros em que a avaliação médica é fundamental
A atuação do psiquiatra, no entanto, não se limita à prescrição de medicamentos. O acompanhamento psiquiátrico também envolve avaliação clínica cuidadosa, escuta, orientação e acompanhamento ao longo do tempo.
O que faz um psicólogo
O psicólogo é um profissional formado em psicologia. Sua formação universitária se dedica ao estudo do comportamento humano, das emoções e dos processos mentais.
Na prática clínica, o psicólogo pode atuar por meio de diferentes abordagens psicoterapêuticas, dependendo da linha teórica adotada durante sua formação.
Diferentemente do psiquiatra, o psicólogo não possui formação médica e não realiza diagnóstico médico nem prescreve medicamentos.
Por essa razão, em muitos casos clínicos que envolvem quadros mais complexos ou que exigem avaliação médica, o acompanhamento psiquiátrico pode ser necessário.
O que é um psicanalista
A psicanálise não corresponde a uma graduação universitária específica. Trata-se de uma formação longa e exigente que ocorre depois da formação inicial do profissional.
Um psicanalista pode ter formação de base em medicina, psicologia ou, em alguns casos, em outras áreas das ciências humanas. O que define a formação psicanalítica não é apenas o estudo teórico, mas um percurso formativo complexo.
Esse percurso inclui três pilares principais:
análise pessoal (análise didática)
supervisão clínica
formação teórica continuada
Na formação clássica de psicanálise, o futuro analista passa por vários anos de análise pessoal. Esse processo é considerado fundamental porque o trabalho psicanalítico exige que o analista tenha um conhecimento profundo de si mesmo e de seus próprios processos psíquicos.
Além da análise pessoal, o candidato à formação psicanalítica acompanha seu trabalho clínico sob supervisão de analistas mais experientes e participa de cursos teóricos ao longo de vários anos.
Trata-se, portanto, de uma formação rigorosa que exige tempo, dedicação e reflexão contínua.
Como funciona a formação psicanalítica
A formação em psicanálise é frequentemente pouco conhecida fora do meio clínico. Diferentemente de muitas especializações profissionais, ela não se limita a cursos teóricos.
No caso de formações vinculadas a sociedades psicanalíticas tradicionais, o percurso costuma incluir:
cerca de quatro anos de análise pessoal intensiva
supervisão clínica individual
supervisões em grupo
cursos teóricos ao longo de quatro a cinco anos
Esse processo tem como objetivo formar profissionais capazes de sustentar uma escuta clínica profunda e responsável.
A psicanálise parte da ideia de que compreender o funcionamento psíquico exige mais do que conhecimento teórico. É necessário também um trabalho contínuo de reflexão sobre a própria experiência subjetiva.
Por essa razão, a formação psicanalítica costuma ser descrita como um percurso de pós-formação, que acompanha o profissional ao longo de sua vida clínica.
Psiquiatria e psicanálise: campos que podem dialogar
Historicamente, psiquiatria e psicanálise seguiram caminhos diferentes dentro do campo da saúde mental. Em muitos contextos clínicos contemporâneos, esses campos são exercidos por profissionais distintos.
No entanto, também é possível que essas duas perspectivas dialoguem dentro de uma mesma prática clínica.
A psiquiatria oferece instrumentos importantes para reconhecer e manejar fenômenos clínicos, avaliar riscos e acompanhar quadros que exigem atenção médica.
A psicanálise, por sua vez, permite uma leitura ampliada dos modos de funcionamento do sujeito, observando aspectos que muitas vezes não aparecem diretamente na descrição dos sintomas.
Quando essas duas perspectivas são articuladas de maneira cuidadosa, a clínica pode ganhar uma dimensão mais ampla.
A prática clínica de Alexandre Horta e Silva
A atuação clínica de Alexandre Horta e Silva se constrói justamente a partir da articulação entre psiquiatria e psicanálise.
Com mais de três décadas de prática clínica contínua, Alexandre desenvolveu um trabalho em que a experiência médica e a formação psicanalítica dialogam de forma permanente.
A formação médica permite reconhecer os fenômenos clínicos, avaliar sua evolução e, quando necessário, indicar tratamentos no campo da psiquiatria, incluindo o uso de medicação.
A formação psicanalítica amplia esse olhar, permitindo observar não apenas os sintomas apresentados, mas também os modos de funcionamento que estruturam os impasses e o sofrimento do paciente.
Em alguns casos, o discurso do paciente pode parecer coerente, enquanto o funcionamento revela dificuldades mais profundas. Em outros, não há um quadro patológico evidente, mas a forma como a pessoa se posiciona na vida indica desorganizações que merecem atenção clínica.
A escuta psicanalítica permite justamente considerar esses elementos que muitas vezes permanecem fora do relato imediato.
Como funciona o atendimento
O atendimento clínico pode assumir diferentes formatos, dependendo da natureza da demanda e da escolha do paciente.
Em alguns casos, o acompanhamento ocorre exclusivamente no campo da psiquiatria, com foco na avaliação médica e no manejo de sintomas.
Em outros, o trabalho se desenvolve no campo da psicanálise, centrado na escuta e na elaboração dos conflitos que atravessam a história e o funcionamento do sujeito.
Também é possível que o acompanhamento aconteça na articulação entre psiquiatria e psicanálise, quando a situação clínica pede uma leitura que considere simultaneamente aspectos médicos e subjetivos.
Alguns pacientes procuram Alexandre exclusivamente para avaliação ou acompanhamento psiquiátrico, muitas vezes já realizando psicanálise ou psicoterapia com outro profissional. Em outros casos, o trabalho ocorre apenas no campo da psicanálise, sem necessidade de acompanhamento psiquiátrico.
Essa definição não é estabelecida de forma rígida no início do processo. Ela leva em consideração tanto a avaliação clínica quanto a escolha do paciente, podendo se ajustar ao longo do acompanhamento conforme a compreensão do caso se aprofunda.
A clínica contemporânea e seus desafios
As transformações sociais, culturais e tecnológicas das últimas décadas modificaram profundamente a forma como as pessoas vivem, trabalham e se relacionam.
Essas mudanças também influenciam as formas de sofrimento psíquico e os modos de funcionamento subjetivo.
A clínica contemporânea exige, portanto, uma atenção constante às transformações do contexto social e às singularidades de cada trajetória.
Nesse cenário, abordagens que conseguem dialogar com diferentes dimensões da experiência humana tendem a oferecer uma leitura mais ampla das situações clínicas.
A articulação entre psiquiatria e psicanálise permite justamente sustentar essa escuta ampliada, evitando reduções simplificadoras e respeitando a complexidade de cada caso.
Considerações finais
Psiquiatras, psicólogos e psicanalistas atuam no mesmo campo da saúde mental, mas partem de formações e métodos de trabalho diferentes.
Compreender essas diferenças ajuda a orientar melhor a escolha do tipo de acompanhamento e a estabelecer expectativas mais claras sobre o processo terapêutico.
No caso de Alexandre Horta e Silva, o trabalho clínico se constrói a partir da integração entre a formação médica em psiquiatria e a formação psicanalítica.
Essa articulação permite que o acompanhamento ocorra no campo da psiquiatria, da psicanálise ou na combinação entre ambos, de acordo com as necessidades clínicas e com a escolha do paciente.
EXISTE VIDA APÓS O CASAMENTO?
O texto aborda vínculos marcados por desgaste progressivo que conduzem a um simbólico duplo suicídio, a partir da análise do filme Dolls, de Takeshi Kitano, e do teatro bunraku japonês.
Publicado originalmente no Jornal de Psicanálise (2007)
Certa vez, num encontro de família, um primo cuja espirituosidade é marcante propôs a seguinte questão aos convivas: “Existe vida após o casamento?”. Lançados numa torrente de comicidade, só nos restou a gargalhada farta, duradoura. Aliviados, refeitos eu diria, comecei a considerar instigante a pergunta. Passei então, numa atmosfera de bom humor, a pensar no assunto, e surgiram idéias e lembranças em que a união de certas pessoas tinha a ver com ligações mortíferas.
Um filme chamado Dolls, do cineasta japonês Takeshi Kitano, aflorou em minha memória. Nele há, como prelúdio, uma peça do teatro de marionetes do Renascimento japonês, seguido de três histórias marcadas pela paixão maldita.
A primeira, e mais marcante, fala de um jovem apaixonado pela namorada, que, pressionado pela ambição, pelo chefe, e até pela própria família, dela desiste para se casar com a filha de seu superior. No dia da cerimônia, a ex-namorada tenta suicídio, que, embora não consumado, a desintegra mentalmente. O rapaz, na hora de seu casamento, fica sabendo do ocorrido; deixa a noiva e os convidados e vai ao encontro da moça hospitalizada. Ao encontrá-la, vê o estado lastimável em que se encontra: já não é a mesma, restando apenas um ser autista, de olhar perdido, lançado em outro mundo. Impactado, tomado de grande emoção e como se não tivesse outra escolha, permanece ao lado dela, passando os dois, a partir desse momento, a errar pelo mundo atados por uma corda vermelha; assim vagueiam degradados até o final de seus dias.
A segunda história mostra um velho doente yakuza (componente da Máfia japonesa) que, intuindo a proximidade da morte, relembra um antigo amor por ele abandonado para tentar enriquecer e angariar poder. Ele comunicou à jovem namorada a decisão de deixá-la, muitos anos atrás, num belo parque onde se encontravam; esta em desespero prometeu esperá-lo para sempre e, todo sábado, sentou-se no mesmo banco, trazendo consigo almoço para ambos, como costumava fazer. Assim, durante toda uma vida ela cumpre este ritual. O antigo namorado, agora idoso e trôpego, resolve voltar ao parque e, surpreso, vê uma senhora sentada num banco com uma marmita na mão à espera do amado; reconhece-a e passa a encontrá-la; ela se mostra receptiva, mesmo não o reconhecendo; almoçam juntos outra vez. Enlevado por estar com o antigo amor em mais um encontro, ao voltar sozinho para o carro, descuida-se de sua segurança e é assassinado por um rival.
O último episódio narra a paixão platônica de um auxiliar de trânsito por uma pop star. Devoto, não perde as apresentações da estrela, seus olhos existem para admirá-la, tem todos os seus discos, álbuns e pôsteres. A cantora se envolve num acidente automobilístico, tendo seu belo rosto seriamente lesado. Arrasada, deixa o mundo artístico; não quer mais ser vista; refugia-se numa praia e se recusa terminantemente a qualquer encontro com fãs. Respeitando a determinação por ela imposta, não ser vista com o rosto mutilado, ele se cega; pôde assim estar ao lado dela. No caminho de volta, sozinho, tateando a estrada com a bengala, sua imagem desaparece, restando no lugar uma poça de sangue.
Essas estórias têm como prólogo um trecho de uma peça do dramaturgo Chikamatsu Monzaemon (1653-1725), do tradicional teatro profissional de marionetes japonês: o bunraku. Sofisticado, dirigido a adultos, cada títere é articulado por três pessoas, sendo que apenas o titereiro principal é visível; comanda a cabeça e o braço direito do boneco. Os restantes, camuflados por panos negros, acionam o braço esquerdo um e as pernas o outro. Três presenças, sendo duas encobertas. Cada boneco mede metade a dois terços de uma pessoa. Há um narrador (tayu) que recita os acontecimentos num estilo poético, chamado joruri, ao ritmo marcado por um instrumento de três cordas, o shamisen. Ambos ficam lado a lado num tablado à direita do palco e não se olham durante a apresentação. O narrador interpreta os personagens masculinos e femininos e ocupa a posição hierárquica mais elevada de todo o elenco.
O teatro bunraku se origina ao longo dos séculos XVII e XVIII; atinge seu apogeu com as obras de seu maior dramaturgo, Chikamatsu Monzaemon, que, como Shakespeare, quinhentista elizabetano, pode ser visto como representante do período Genroku (1688-1704), o Renascimento japonês — que se inicia aproximadamente cem anos depois do período elizabetano, na Inglaterra. Chikamatsu inicialmente escreveu dramas históricos; numa evolução humanística, em seus dramas amorosos domésticos, passa a abordar circunstâncias dos cidadãos comuns da classe média, introduzindo o tema do duplo suicídio como decorrência do choque entre as severas obrigações sociais e as necessidades sentimentais individuais.
Duas de suas peças mais famosas seguem este tema: Os amantes suicidas de Sonezaki (1703), inspirada e escrita um mês depois do incidente em que um empregado de uma loja e uma cortesã se suicidam em decorrência da impossibilidade de sua união; e Os amantes suicidas de Amijima (1720) — ambas comparadas às peças de mesmo enredo de Shakespeare: Romeu e Julieta (1595-96) e Antônio e Cleópatra (1606).
O Japão de então se encontra no período histórico Edo (1600-1868), época de grande desenvolvimento mercantil e estabilidade, que marca o começo do período moderno japonês.
O cineasta insinua que as pessoas não têm o livre-arbítrio da escolha, são conduzidas e estão à mercê do destino e da inconsciência.
O prólogo do filme está ligado a sua própria história, pois a avó fazia parte de uma trupe de teatro bunraku e treinava em casa para as apresentações, introduzindo o neto nos meandros dos temas e dos dramaturgos mais expressivos.
Na infância presenciou um fato que muito o impressionou: um casal de mendigos, que amarrados andavam pela cidade. Nunca obteve uma explicação para tal circunstância, e isso o inspirou para uma das histórias de seu filme.
As passagens em Dolls nos mostram mortes em vida; indivíduos ligados uns aos outros mediante pactos, verdadeiros suicídios. Gente comum, nem boa nem má, impossibilitada de se desvencilhar dos elos doentios de uma existência sem opção. Por isso Kitano considera este o seu filme mais violento. As falas são curtas, servem apenas para localizar-nos no enredo; a comunicação é maciçamente não-verbal. Somos lançados num mar de emoções avassaladoras, ligadas a uma profusão de imagens belíssimas, intencionalmente fotografadas: junção do extremamente belo e da morte. A beleza extrema é conclusiva; nada precisa ser alterado; movimentações são desnecessárias: reside aí a ligação com a morte.
A cena das cerejeiras no auge do esplendor com suas flores exuberantes é imensamente significativa, já que na natureza elas caem pouco depois de desabrochar: beleza e morte anunciada. As estações do ano se sucedem, ficamos em dificuldade de escolher qual a mais linda imagem, e o casal amarrado por uma corda vermelha vaga, mas num vagar atemporal, sem sentido; já estão mortos; ações em vão; somente a morte concreta poderia libertá-los. Ficamos envoltos nesse clima de beleza e morte.
O casal de velhos, numa volta patética a um passado para viver algo que já se foi, e o auxiliar de trânsito para manter uma imagem perene de sua adorada estrela, optando pela cegueira, são marcos de desespero e desamparo, dispersos nas impossibilidades da escolha humana.
Ao tentarmos algum entendimento de culturas diferentes, no caso a japonesa, devemos levar em consideração que a possibilidade de uma pessoa reagir emocionalmente às demandas da vida está diretamente ligada ao depósito de lendas e mitologia que configuram a estrutura sociocultural na qual está inserida. Quero dizer com isso que mesmo as manifestações inconscientes limitam-se ao depósito lendário específico, responsável pelo alcance da expansão individual e coletiva.
O sentimento de vergonha do japonês é marcante, e inúmeras narrativas mostram isso claramente:
No mito da origem do Japão, a divindade paterna Izanagi e a divindade materna Izanami solidificaram, juntos, a Terra, criando as ilhas e dando à luz muitas divindades, entre elas o deus do fogo, que ao nascer queimou os genitais da deusa, levando-a à morte. No domínio dos mortos, a deusa deformada interdita a presença de seu companheiro; não queria ser vista naquele estado. Ele a desrespeita, desce ao mundo dos mortos e a vê queimada, sendo comida pelos vermes. Ao perceber ter sido vista, é tomada de extrema vergonha e raiva.
Há várias fábulas do folclore japonês com o mesmo tema: surge uma bela e irresistível mulher; o homem se apaixona; o casamento se consuma; vivem felizes; mas a esposa impõe ao marido, como condição para continuar a relação matrimonial, não ser vista ao dar à luz ou ao amamentar. Essa situação é imposta, pois a mulher na verdade é um animal, que volta ao seu real estado nessas circunstâncias. O homem desobedece e flagra um animal parindo ou alimentando o recém-nascido. Ao se perceber vista, tomada de vergonha, vai embora. Essas fábulas recebem o nome do animal que as inspiram: “Esposa Peixe”, “Esposa Marisco”, “Esposa Serpente”, entre outras.
A vergonha, sentimento muito desenvolvido no repertório afetivo japonês, apresenta nuances no tocante à sua discriminação comparáveis à possibilidade aumentada de um esquimó discernir tons de branco (pois vive nas geleiras) ou de um índio na sua capacidade para tons de verde (a cor predominante das matas). Assim, em quem nasce num contexto onde a vergonha é apurada por circunstâncias socioculturais, sua eclosão é mais intensa e frequente. Já na cultura judaico-cristã, cuja estrutura lendária e mitológica hipertrofia as manifestações de culpa, os indivíduos assentam várias de suas experiências sobre este sentimento.
No filme há a situação explícita da vergonha no caso da pop star com o rosto deformado que não quer ser vista. Podemos inferir que a jovem abandonada e desprezada pelo namorado se sente extremamente envergonhada por ele e tenta o suicídio; e ele por ter desencadeado a reação da ex-namorada e também por deixar a noiva no altar é possuído pelo mesmo sentimento. Obviamente, essas manifestações afetivas não excluem outras, mas constituem elemento importante da dinâmica mental dos japoneses.
Os eventos contemporâneos ligados ao duplo suicídio diferem muito dos do Renascimento. Neste existe uma escolha, uma finalidade, um porquê: morrer a dois é a expressão da impossibilidade da separação e a morte é consumada concretamente como desfecho de um conflito. Nos atuais, o extermínio se faz sem ser percebido; a morte não é reconhecida, fica fora da consciência, mas está presente e ata de forma bastante potente os envolvidos, simulando vida onde só há escombros: um duplo suicídio simbólico.
Defrontamo-nos em nossos consultórios com situações dessa natureza, e o encaminhamento das análises passa pelo reconhecimento por parte dos pacientes da morte onde se acreditava haver vida. Obviamente, falar de algo tão abstrato, sub-reptício, requer um grande esforço, pois a interpretação ao mesmo tempo que desmascara a morte, desarticulando seus disfarces, tem que abrir perspectivas de vida real, saudável, num contexto onde os protagonistas, até então, só sabem viver uma vida sem vida.
Portanto, em situações claras da “inexistência de vida após o casamento”, a pretensão de transformar este estado de coisas em “vida após o casamento”, com todos os rearranjos necessários, passa por muitas provações; logo essa evolução só se fará presente após “imensas perdas”; mesmo em se tratando de perder a morte para ganhar a vida.
REFERÊNCIAS
Bloom, H. (2001). Shakespeare: A invenção do humano (J. R. O’Shea, trad.). Rio de Janeiro: Objetiva.
Highwater, J. (1992). Mito e sexualidade. São Paulo: Saraiva.
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Kitayama, O. (1991). A receptividade do terapeuta, no Japão, frente às experiências do paciente envolvendo vergonha e sentir-se exposto. IDE, São Paulo, 20, 58-65.