ENVELHECIMENTO E SAÚDE MENTAL: O QUE SIGNIFICA FICAR INTEIRO?
O envelhecimento não acontece apenas no corpo. Ele modifica nossa relação com o tempo, com as próprias capacidades, com os lugares que ocupamos e, muitas vezes, com a imagem que construímos de nós mesmos ao longo da vida.
Vivemos mais, permanecemos ativos por mais tempo e atravessamos transformações tecnológicas, profissionais e sociais em uma velocidade que seria difícil imaginar algumas décadas atrás. Mas viver mais não significa permanecer igual.
Foi a partir dessas questões que Dr. Alexandre Horta e Silva, psiquiatra e psicanalista, e Luciana Fortes, psicóloga e neuropsicóloga, conversaram sobre envelhecimento e saúde mental em uma edição do quadro Conversas que Curam, veiculado no canal do Programa Em Dia.
A conversa teve como ponto de partida algumas das reflexões desenvolvidas por Alexandre no texto “Ficar para trás é um jeito de ficar inteiro”, publicado anteriormente em Textos e Reflexões, e ganhou novos caminhos a partir do encontro entre as perspectivas da psiquiatria, da psicanálise, da psicologia e da neuropsicologia.
→ [Ficar para trás é um jeito de ficar inteiro]
Assista à conversa sobre envelhecimento e saúde mental
Ao longo da conversa, Alexandre Horta e Silva e Luciana Fortes abordam diferentes dimensões do envelhecimento: mudanças cognitivas, tecnologia, aposentadoria, identidade, autonomia, atividade intelectual, solidão, sexualidade, psicoterapia, psiquiatria e a possibilidade de continuar construindo experiências significativas ao longo da vida.
O que significa realmente “ficar para trás”?
A sensação de estar ficando para trás pode nascer de experiências bastante concretas.
A tecnologia avança em uma velocidade difícil de acompanhar. Filhos e netos dominam com naturalidade instrumentos que podem exigir esforço das gerações anteriores. O ritmo físico se modifica. Algumas tarefas passam a demandar mais tempo, atenção ou ajuda.
Durante a conversa, Alexandre chama a atenção para o risco de transformar essas diferenças em um julgamento sobre o próprio valor.
Reconhecer que já não temos determinada habilidade ou velocidade não significa perder aquilo que somos. O problema aparece quando uma dificuldade específica passa a ser interpretada como uma espécie de insuficiência global.
Luciana acrescenta outra dimensão: a própria convicção de que “não vou conseguir” pode impedir a tentativa. Encontrar outra maneira de aprender, pedir ajuda ou simplesmente realizar determinada tarefa em outro ritmo é muito diferente de considerar-se incapaz.
Talvez, portanto, a primeira pergunta não seja simplesmente se estamos ficando para trás.
Atrás de quem — e de quê — acreditamos estar?
Envelhecer bem não significa continuar jovem
O aumento da longevidade trouxe consigo uma expectativa curiosa: não basta viver mais. Parece necessário permanecer produtivo, atualizado, fisicamente ativo e independente durante todo esse tempo.
Surge, assim, um novo ideal: o de “envelhecer bem”.
Mas o que significa exatamente envelhecer bem?
Na conversa, Alexandre propõe uma perspectiva menos idealizada: utilizar os recursos possíveis para aquele momento da vida.
Isso implica reconhecer limites sem transformá-los em impossibilidade.
O ritmo de uma viagem pode mudar. Uma atividade pode exigir mais tempo. Algumas decisões podem pedir ajuda. Certas capacidades se modificam enquanto outras, construídas pela experiência, podem tornar-se particularmente sofisticadas.
O problema talvez comece quando exigimos do envelhecimento uma continuidade impossível da juventude.
Não precisamos disputar todas as corridas
Um dos momentos mais interessantes da conversa surge quando Alexandre utiliza uma imagem bastante direta:
“A gente não deve brigar no terreno do inimigo.”
Ao envelhecer, tentar competir com os mais jovens exatamente nos atributos favorecidos pela juventude — velocidade, determinadas performances físicas ou familiaridade imediata com certas novidades — pode produzir uma comparação inevitavelmente desfavorável.
Mas esse não é o único terreno possível.
Décadas de experiência podem proporcionar repertório, capacidade de reconhecer situações já vividas, julgamento e uma percepção mais sofisticada de problemas complexos.
O próprio Alexandre recorre à sua experiência médica: algumas capacidades físicas evidentemente já não são as mesmas, enquanto a possibilidade de compreender rapidamente determinadas situações clínicas tornou-se muito maior ao longo dos anos.
Talvez ficar inteiro também dependa de reconhecer em que terreno ainda faz sentido jogar.
Aceitar as perdas sem tornar-se aquilo que foi perdido
Envelhecer envolve perdas reais.
Negá-las produziria uma visão tão distorcida quanto enxergar a velhice exclusivamente como decadência.
Durante a conversa, surge uma distinção fundamental: aceitar que houve uma perda não significa permitir que essa perda resuma tudo aquilo que uma pessoa é.
Essa diferença aparece em situações muito diversas: aposentadoria, alterações físicas, mudanças cognitivas, saída dos filhos de casa, necessidade crescente de ajuda ou abandono de atividades que durante décadas fizeram parte da identidade.
A aposentadoria é um exemplo particularmente significativo.
Para algumas pessoas, representa liberdade. Para outras, pode retirar abruptamente uma estrutura que organizava não apenas os dias, mas também a identidade, os vínculos sociais, o reconhecimento e a sensação de utilidade.
Alexandre chama a atenção, por isso, para a importância de que alguma coisa significativa possa ocupar o espaço deixado pelo trabalho: não simplesmente uma forma de preencher o tempo, mas algo capaz de continuar produzindo interesse, troca e investimento emocional.
Perder um papel não precisa significar perder quem somos.
Continuar aprendendo é também continuar participando do mundo
Outro eixo importante da conversa é a relação entre envelhecimento, atividade cognitiva e participação na vida.
Ler, aprender, conversar, trocar ideias, interessar-se por assuntos novos e manter contato com outras pessoas são formas de permanecer em relação com o mundo.
Alexandre relata conviver com pessoas consideravelmente mais velhas que permanecem intelectualmente muito ativas, lendo, pensando e trocando ideias.
Luciana, a partir da neuropsicologia, amplia essa reflexão ao abordar a importância da atividade cognitiva e da adaptação das experiências às possibilidades de cada pessoa.
Não se trata de negar que algumas capacidades possam se modificar.
A pergunta talvez seja outra:
Com aquilo que tenho hoje, de que maneira posso continuar interessado pela vida?
A liberdade de não precisar provar tanto
Se existem perdas associadas ao envelhecimento, existem também liberdades que podem surgir justamente com o passar do tempo.
Durante muitos anos, construímos carreira, relações e uma posição no mundo. Queremos ser vistos, reconhecidos e aprovados. Precisamos demonstrar competência e encontrar nosso lugar.
Em algum momento, essa necessidade pode diminuir.
A pessoa conhece melhor suas capacidades e seus limites. Um elogio continua sendo agradável, mas já não precisa funcionar como confirmação permanente de seu próprio valor.
Alexandre resume essa possibilidade em uma frase:
“Você já não tem que provar mais nada. Você tem simplesmente que atuar.”
Essa liberdade pode aparecer na maneira de falar, escolher relações, estabelecer prioridades e abandonar protocolos que anteriormente pareciam indispensáveis.
Talvez uma parte importante de envelhecer seja descobrir o que já podemos deixar de carregar.
Envelhecer não precisa ser leve
Em outro momento da conversa, surge uma pergunta sobre como levar com leveza o envelhecimento e a possibilidade da finitude.
Alexandre contesta a própria premissa:
“Eu não acho que seja uma situação leve.”
Há perdas, limitações, doenças e uma consciência progressivamente mais concreta da finitude. Transformar tudo isso em um discurso exclusivamente positivo pode significar negar uma parte importante da experiência humana.
A alternativa proposta por ele não é a leveza, mas a coragem.
Coragem para reconhecer aquilo que mudou. Para adaptar-se ao que agora é possível. Para continuar fazendo o que ainda pode ser feito. E para não exigir de si um ritmo incompatível com o momento da vida.
Nesse sentido, aceitar não significa desistir.
Significa reconhecer a realidade sem permitir que ela encerre antecipadamente as possibilidades que ainda permanecem abertas.
Há experiências que só se tornam possíveis mais tarde
A conversa também ajuda a desfazer outra imagem recorrente da velhice: a ideia de que ela seria apenas uma sucessão de encerramentos.
Ao falar de sua experiência clínica, Alexandre observa que atende pessoas com mais de 70 anos cujas questões não se restringem a perdas, doenças ou limitações.
Existem também novas relações, viagens, projetos, descobertas e experiências que não haviam sido possíveis anteriormente.
Em um dos exemplos mencionados durante a conversa, um homem que havia perdido a esposa iniciou posteriormente uma nova relação e passou a experimentar uma vida afetiva e sexual intensa, além de viajar e realizar atividades que antes não faziam parte de sua vida.
É um contraponto importante à ideia de que determinada idade determina, por si só, o encerramento da vida afetiva, da sexualidade ou da possibilidade de transformação.
A existência não termina quando uma etapa termina.
Pode simplesmente adquirir outra configuração.
O que significa, afinal, ficar inteiro?
Talvez ficar inteiro não signifique conservar intacto tudo aquilo que fomos.
O corpo muda. As capacidades se transformam. Papéis que durante décadas pareciam inseparáveis de nossa identidade podem desaparecer. Algumas possibilidades se encerram.
Outras, porém, podem surgir.
A questão central talvez esteja em conseguir distinguir aquilo que estamos perdendo daquilo que somos.
Foi justamente esse o ponto de partida do texto que deu origem à conversa: em determinadas etapas da vida, deixar de acompanhar algumas corridas pode não representar fracasso.
Pode significar reconhecer que já não precisamos disputá-las.
E que permanecer inteiro talvez não dependa de chegar antes, mas de continuar encontrando uma maneira própria de estar no mundo.
Para continuar a reflexão
A conversa nasceu das questões desenvolvidas por Alexandre Horta e Silva em “Ficar para trás é um jeito de ficar inteiro”, texto no qual propõe uma reflexão sobre a cultura da velocidade, as perdas associadas ao envelhecimento e a possibilidade de abandonar algumas corridas sem transformar essa escolha em fracasso.
→ [Leia “Ficar para trás é um jeito de ficar inteiro”]