O FARDO DA MATERNIDADE: CULPA, LIMITES E RESPONSABILIDADE NA EDUCAÇÃO DOS FILHOS

Você é culpada até que se prove o contrário. Pobres mães.

Por que iniciar de forma tão desalentadora uma reflexão que pretende, na medida do possível, aliviar as imensas cargas lançadas sobre os ombros de quem cria e cuida dos filhos? Hoje, além do cuidado materno, as crianças frequentemente recebem uma série de intervenções e assessorias — entre elas, especialmente no campo psicológico, a psicoterapia.

Como queixa recorrente em consultório, ouço das mães que, em vez de haver uma ação mais direta sobre os filhos, elas próprias acabam sendo acusadas por falhas de conduta. O problema do filho, afinal, recairia sobre a mãe.

Uma delas relata:

“Tenho três filhos e, apesar de criá-los de forma bastante semelhante, sou acusada de cometer verdadeiros ‘pecados mortais’ com um deles, enquanto os outros estão bem. Cada um veio de um jeito muito diferente, mas, na argumentação do psicoterapeuta, sou eu quem ‘pisa na bola’ justamente com aquele que está em tratamento. Sinto-me acusada, em dívida, mesmo fazendo o máximo que posso. Parece coisa de filme policial americano: ‘você tem o direito de ficar calada, e tudo o que disser poderá ser usado contra você’. A diferença é que, na terapia, não posso — e nem quero — ficar calada. Mas falar parece piorar minha situação.”

A culpa que recai sobre a mãe


Essa lógica de culpabilização materna não se limita ao espaço terapêutico. Ela atravessa o ambiente familiar, circula entre gerações e se manifesta nas relações mais próximas. A mãe se vê frequentemente colocada sob julgamento — pelo pai da criança, por avós, por outras mulheres e, não raro, pela própria mãe.

A culpa não vem apenas da clínica; ela se distribui no tecido familiar e encontra respaldo em um discurso contemporâneo sobre maternidade e educação dos filhos que insiste em localizar na figura materna a origem privilegiada de tudo o que não vai bem.

Ela prossegue:

“Não me conformo em ser responsabilizada por tudo. Meu filho parece não ter qualquer implicação na própria vida. Quando quer algo, precisa ser na hora — coisas simples, como um brinquedo ou evitar uma tarefa escolar. Mesmo quando explico que não é possível naquele momento, ele insiste sem parar. A situação escala: grita, se joga no chão, repete o mesmo pedido incessantemente, até me levar à exaustão. Ouço frases como: ‘não quero fazer o que não gosto’ ou ‘por que não posso brincar, se é isso que quero agora?’.”

A criança como efeito dos pais

Ao retornar às conversas com a psicóloga, diz ouvir, com frequência, explicações que buscam compreender e contextualizar o comportamento do filho. Em alguns casos, pode haver uma tendência a interpretar esse comportamento predominantemente a seu favor, em uma cadeia de causas e efeitos nem sempre suficientemente consistente.

“Ele está assim porque tem uma prova e está tenso.”

Mas — questiona a mãe — não se deveria também ensiná-lo que, mesmo tenso, ele precisa cumprir suas responsabilidades?

O que se observa, em muitos contextos, é uma tendência a evitar qualquer frustração infantil, como se todo comportamento devesse ser compreendido e justificado — muitas vezes à custa de uma suposta falha materna.

Gradualmente, consolida-se uma leitura simplificada do desenvolvimento infantil, em que a criança aparece como resultado direto — e quase exclusivo — da ação dos pais, sobretudo da mãe. Apaga-se, assim, a dimensão própria do sujeito: sua forma singular de responder, de resistir, de desejar e de agir no mundo.

“Sou eu quem desencadeia tudo”, conclui.
“Onde está o meu filho nisso? Em que momento ele se constituirá como sujeito responsável?”

A recusa da frustração infantil

Aos poucos, ela relata ter sido capturada por essa lógica, tornando-se cada vez mais angustiada e sobrecarregada, tentando incessantemente ajustar-se para ser “uma boa mãe”.

“Tudo parece ter a ver comigo — e nada com as atitudes dele.”

E acrescenta:

“Tenho outros filhos, e não são assim. Pergunto-me: quando as coisas vão bem, não tenho mérito algum; mas, quando vão mal, a responsabilidade é inteiramente minha? Isso não é um absurdo?”

Observa também uma mudança na forma como as crianças são tratadas:

“Vejo-as sendo tratadas como bibelôs, sem hierarquia — adultos e crianças no mesmo nível, como se a experiência não contasse. Tornamo-nos adultos culpados até prova em contrário, e nisso há uma enorme distorção.”

A perda de autoridade na escola

A escola, por sua vez, também parece atravessada por essa transformação. A autoridade do professor torna-se cada vez mais frágil, e sua margem de intervenção, mais restrita.

Cresce o receio de corrigir, de frustrar e de exercer qualquer forma de contenção que possa ser interpretada como excessiva. Em algumas instituições, a caneta vermelha foi desaconselhada: “traumatiza” a criança. As correções passam a ser feitas com cautela, para não desencorajar.

Muitas vezes, as crianças crescem sem sequer reconhecer claramente seus próprios erros.

Aos poucos, a função educativa vai sendo reduzida a uma dimensão quase exclusivamente técnica, como se ensinar pudesse prescindir da transmissão de limites, de referências e de diferenças entre posições.

Hoje, diz ela, há protocolos rígidos sobre o que pode ou não ser feito.

“Se realizarmos uma contenção física, corre-se o risco de ser criminalizado. Situações simples, antes resolvidas com um gesto firme, agora são interpretadas como agressão. E as crianças sabem disso — e se utilizam disso.”

Contenção não é sinônimo de violência

Relata um episódio:

“Encontrei meu filho de 10 anos batendo na irmã de seis. Ao repreendê-lo, ele respondeu que, outro dia, eu o havia puxado pelo braço — e perguntou por que eu podia fazer isso e ele não. Mas não se tratava da mesma coisa: eu o contive; ele estava agredindo a irmã.”

Ao levar o caso ao psicoterapeuta, ouviu que havia dado um “péssimo exemplo”.

“Disseram que eu deveria ter conversado. Mas eu já havia conversado inúmeras vezes, sem efeito. Não podia permitir que ele machucasse a irmã. A intervenção física, no caso, foi contenção — não agressão.”

Confunde-se, com frequência, contenção com violência, como se qualquer intervenção corporal implicasse necessariamente agressão.

No entanto, a contenção, em determinadas situações específicas, pode exercer uma função organizadora, oferecendo à criança um limite concreto diante de algo que, naquele momento, ela ainda não consegue regular por si mesma.

E conclui:

“As pessoas não são iguais. Para algumas crianças, a palavra basta; para outras, o tom precisa mudar; e há situações em que a palavra se mostra inócua. Existem também medidas corretivas — como retirar algo desejado — que podem funcionar, mas que, em certos casos, apenas agravam a situação, como um remédio que, em vez de aliviar a dor, a intensifica.”

O que está em jogo na educação dos filhos hoje

  • excesso de culpabilização materna

  • dificuldade de impor limites

  • recusa da frustração infantil

  • apagamento da responsabilidade da criança

Limites, frustração e a constituição do sujeito

Educar uma criança implica, inevitavelmente, introduzi-la à experiência da frustração. Frustrar não é falhar, assim como estabelecer limites na educação dos filhos não é exercer violência.

Ao contrário: é justamente na presença de referências claras — ainda que, por vezes, difíceis de sustentar — que a criança pode, pouco a pouco, se situar diante do outro e de si mesma.

Isso não significa atribuir à criança uma responsabilidade plena e precoce, tampouco eximir os adultos de sua função. Significa, antes, recolocar cada um em seu lugar: ao adulto, a responsabilidade de sustentar um campo minimamente estruturado; à criança, a possibilidade de, gradualmente, implicar-se em seus próprios atos.

Quando toda dificuldade é reconduzida a uma falha parental, corre-se o risco de produzir um duplo efeito: sobrecarregar os pais e, ao mesmo tempo, esvaziar a criança de sua condição de sujeito.

Sem a experiência do limite — elemento central na educação dos filhos —, não há responsabilização possível. E, sem isso, aquilo que poderia se constituir como processo de crescimento tende a se transformar em um circuito de repetição, cada vez mais difícil de interromper.

Em situações como essas, não é incomum que os pais se sintam desautorizados, confusos ou mesmo culpados por sustentar posições que, intuitivamente, reconhecem como necessárias.

Nesses momentos, pode ser importante contar com um espaço de escuta que não reforce automaticamente a lógica da culpabilização, mas que permita recolocar as questões em sua complexidade. Um interlocutor experiente, capaz de sustentar esse nível de leitura, pode não apenas oferecer respaldo, mas também ajudar a construir, junto aos pais, caminhos possíveis — sem simplificações e sem respostas prontas.

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