A MODA DOS DIAGNÓSTICOS NA MEDICINA: ENTRE CIÊNCIA, COMPORTAMENTO E SUBJETIVIDADE
Tenho visto filmes que despejam uma enxurrada de propaganda de todo tipo de produto, como, por exemplo, roupas, vinhos, carros, sapatos e até medicações. Além dos produtos, há também a propaganda de comportamentos, isto é, de como e com quem podemos nos relacionar, incentivando práticas das quais não tenho nada contra. Porém, quero me ater à propaganda maciça lançada sobre nós, que se transforma em moda — e a moda dita as nossas vidas, por mais que queiramos acreditar no contrário.
A nossa escolha de qualquer coisa, falando de forma mais genérica, está influenciada pela divulgação direta, quando vemos o produto ou comportamento explicitamente, ou quando, de forma indireta, recebemos o conteúdo de maneira mais sutil.
Pensando na ciência — mais especificamente nos diagnósticos em medicina — quero chamar a atenção para a questão da moda.
Diagnósticos médicos e influência de tendências
Os diagnósticos médicos, por mais isentos que devessem ser, seguem, muitas vezes, movimentos que se aproximam de tendências. O interesse econômico e de poder rege o mundo e também atravessa a ciência médica. Quando, por exemplo, determinada medicação precisa ser amplamente utilizada, cria-se, direta ou indiretamente, um ambiente propício à legitimação de diagnósticos que sustentem o seu uso.
Além da aplicação lícita, embasada em critérios clínicos consistentes, há também um campo mais difuso, em que determinadas indicações se expandem para além de seus limites mais claros. Quando nos é dito que tal medicação pode ter efeitos desejáveis — como perda de peso ou melhora da potência sexual — é inevitável que se amplie o interesse pelo produto.
Os efeitos colaterais, por sua vez, também podem funcionar como forma indireta de divulgação, ampliando a circulação de informações sobre determinado fármaco.
Comportamento, trabalho e medicalização
Voltando à questão do comportamento, gostaria de me deter em um ponto frequente na prática clínica: a relação do indivíduo com o trabalho.
Hoje, já não encontramos com facilidade termos coloquiais como “vagabundo”, que em outros tempos eram utilizados de maneira direta — ainda que muitas vezes carregados de julgamento. Em seu lugar, observa-se, em alguns casos, uma tendência à tradução imediata de determinadas posições subjetivas em categorias diagnósticas.
Sem negar a existência, a relevância e, em muitos casos, a gravidade de quadros como o TDAH — Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade — ou o TEA — Transtorno do Espectro Autista —, é possível observar também situações em que o diagnóstico aparece menos como resultado de um processo clínico rigoroso e mais como uma resposta rápida a impasses da vida cotidiana.
Não implica que o sofrimento envolvido nessas situações seja menor ou irrelevante — ao contrário, muitas vezes é justamente ele que leva o sujeito a procurar ajuda.
Há, portanto, um campo delicado, no qual se torna necessário distinguir entre o sofrimento psíquico propriamente dito e determinadas formas de posicionamento diante da vida — entre elas, a dificuldade, a recusa ou o desinteresse pelo trabalho.
Se conseguirmos nos afastar, ainda que momentaneamente, do peso moral e social envolvido nessa questão, poderíamos considerar que nem toda recusa ao trabalho corresponde, necessariamente, a um quadro patológico.
Quero deixar claro que me refiro a situações específicas que observo em consultório: pessoas de diferentes idades que recorrem à linguagem médica para explicar, ou por vezes justificar, modos de vida que não se enquadram nas expectativas sociais mais comuns.
Uma consulta diferente
O caso a seguir não pretende representar a totalidade das situações clínicas. Fui surpreendido, certa vez, por um jovem adulto de 23 anos que veio a uma consulta por pressão de sua família, inconformada com sua recusa em trabalhar.
Tivemos uma conversa insólita, dada a explicitude de sua fala. Exporei um pequeno trecho de nosso diálogo.
Paciente: Doutor, eu sou vagabundo. Não gosto de trabalhar, não gosto de livros. Ser mantido pela minha família é o que desejo — afinal, há dinheiro de sobra — e eu quero viver assim. Tenho as minhas aflições, mas a falta de trabalho não é uma delas.
Alexandre: Você é muito direto. Parece-me pouco preocupado com a sua imagem.
Paciente: Não mesmo. Esse tempo já passou. Eu não quero, diante de um médico, mentir a meu respeito. Sou o que sou.
Alexandre: É uma excelente ideia.
Paciente: Querem que o senhor me dê uma medicação para me curar da minha “vagabundagem”. Parece com a ideia da “cura gay”: o sujeito é homossexual e pronto — não há nada a curar.
Alexandre: Cada um é cada um, com as suas próprias condições. É assim, não é?
Paciente: Ótimo. O senhor é o primeiro a me dizer isso. Eu insisto: não sou deprimido, nem ansioso, nem tenho crises de pânico. Apenas tento manter a minha vida dentro do possível, desfrutando prazeres.
Alexandre: Quando você diz “dentro do possível”, entendo que há algo fora do possível, certo?
Paciente: Sim. As brigas com a minha família, com a minha namorada… Aí saio do conforto e entro no desprazer — mas isso eu aceito. Enfim, não quero que fiquem no meu pé, me pressionando. Obviamente, seria mais fácil se eu quisesse ou gostasse de trabalhar.
Alexandre: Você não considera a possibilidade de fazer algo dentro da faixa do prazer, mas que possa retirá-lo dessa pecha?
Paciente: Eu gosto de cozinhar. Pego uma receita, faço, e fica bom — dá certo, é um talento. Mas não quero ter um restaurante, como já me sugeriram.
Alexandre: Eu não tenho o menor interesse em transformá-lo num trabalhador. Como você veio até aqui, estou apenas tentando entender a situação.
Paciente: O senhor já entendeu — senão, estaria sendo moralista.
Alexandre: Isso é bom. Além de conversar, para melhor conhecê-lo, não tenho nenhuma proposta de medicação ou de oferecer-lhe um diagnóstico que abarque essa condição.
Paciente: Ah, que bom. Isso abre caminho para eu lhe falar das minhas receitas — fala jocosamente.
Alexandre: Interesso-me por isso — falei, sorrindo.
Paciente: Será uma ducha de água fria sobre minha mãe e minha avó. Quem sabe elas se convençam de que não sou doente — só não quero trabalhar.
Entre diagnóstico e escuta clínica
A prática clínica, nesses casos, não se orienta pela necessidade de enquadrar o sujeito em um diagnóstico, mas pela escuta do que, de fato, está em jogo em sua relação com a própria vida.
Nem tudo o que escapa às expectativas sociais é, necessariamente, patológico. Tampouco todo sofrimento pode ser resolvido por meio de uma classificação diagnóstica ou de uma prescrição medicamentosa.
Entre a patologização excessiva e a negação do sofrimento, há um campo mais exigente — e mais propriamente clínico — que demanda escuta, tempo e discernimento.
Isso não significa desconsiderar o sofrimento de quem procura ajuda, nem ignorar diagnósticos já estabelecidos. Ao contrário: significa tomá-los como ponto de partida, e não como ponto de chegada.
Muitas das situações que chegam ao consultório não são exceções isoladas, mas experiências que se repetem, cada uma à sua maneira, em diferentes trajetórias de vida.
Cada paciente traz consigo uma história, uma forma própria de sofrimento e também uma maneira singular de se posicionar diante da vida. É nesse espaço que o trabalho clínico se constrói — não na aplicação automática de categorias, mas na tentativa de compreender o que, para aquele sujeito, está em jogo.
Implica reconhecer que o sofrimento, mesmo quando não se organiza imediatamente em um diagnóstico preciso, não deixa de exigir atenção e cuidado.
Em alguns casos, haverá indicação de medicação; em outros, não. Em todos, no entanto, há a possibilidade de um trabalho clínico orientado, que não reduza a experiência humana a um rótulo, mas que também não a abandone à própria deriva.