CONVERSAS QUE ALIVIAM: COMO NOVAS PERSPECTIVAS PODEM TRANSFORMAR O SOFRIMENTO PSÍQUICO
Ao longo da minha prática clínica, tenho observado que aquilo que as pessoas apresentam como origem de seu sofrimento nem sempre corresponde ao que verdadeiramente as faz sofrer. Por meio de três experiências marcantes, reflito sobre como determinadas conversas podem abrir novas perspectivas, favorecer rearranjos psíquicos e permitir formas mais razoáveis de conduzir a própria vida. Afinal, algumas conversas não mudam a realidade, mas podem transformar profundamente a maneira como a vivemos.
Todos nós já tivemos a experiência de sair de uma conversa sentindo que algo havia mudado, embora nada tivesse mudado externamente.
O problema permanecia o mesmo, a realidade continuava a existir, mas uma nova compreensão permitia habitá-la de outra maneira.
Na prática clínica, uma experiência se repete com frequência: aquilo que as pessoas dizem ser a origem de seu sofrimento nem sempre corresponde ao que verdadeiramente as faz sofrer. Muitas vezes, a dor se apresenta por meio de preocupações aparentemente secundárias, enquanto questões mais profundas permanecem ocultas.
Algumas conversas, quando abrem percepções antes inacessíveis, favorecem reposicionamentos e, não raramente, produzem alívio para quem sofre. A pessoa passa a contar com um conteúdo, uma perspectiva ou uma compreensão que até então lhe estavam indisponíveis.
Esse ganho pode funcionar como um facilitador de mudanças, redirecionando fluxos mentais e permitindo novas formas de lidar com o sofrimento emocional.
Para deixar mais claro, exemplificarei.
Quando a preocupação aparente esconde outro medo
Fui chamado por um cirurgião para consultar um paciente que ele iria operar e que lhe estava dando muito trabalho: questionava-o repetidamente sobre como ficaria a cicatriz cirúrgica. Apesar das tentativas do médico em tranquilizá-lo, o paciente não se aquietava e mantinha a mesma indagação, demonstrando extrema aflição.
Ao encontrar esse senhor, já às vésperas da cirurgia, ele repetiu a pergunta:
— Como ficará a minha cicatriz cirúrgica?
Queria detalhes de algo que, para mim, parecia secundário para quem seria submetido a uma ampla e delicada intervenção. No entanto, depositava na ideia da cicatriz uma imensa carga de aflições.
Enquanto o ouvia, comecei a me perguntar por que um homem prestes a enfrentar uma cirurgia tão delicada parecia tão preocupado justamente com a marca que ficaria na pele.
Aos poucos, ocorreu-me que aquela preocupação talvez encobrisse um medo maior: a apreensão quanto ao resultado da cirurgia, quanto à própria sobrevivência.
Com isso em mente, fiz-lhe uma colocação que mudou o rumo da conversa.
Disse-lhe:
— Para haver uma cicatriz, é preciso estar vivo. Creio que sua preocupação não seja exatamente com a cicatriz, mas em saber se sobreviverá ou não. Nesse sentido, a cicatriz significa sobrevivência.
Apresentada dessa forma, a questão abriu a possibilidade de falar sobre seus medos e aflições, permitindo outro arranjo psíquico e criando espaço para lidar com suas legítimas preocupações diante da cirurgia.
Felizmente, a intervenção foi realizada com sucesso e a cicatriz se fez presente.
Quando a realização de um sonho traz surpresa
Outra situação.
Um paciente, homem próximo dos cinquenta anos, tinha, quando criança, grande fascinação pelos carros da Mercedes-Benz. Imaginava que aqueles que os possuíam eram pessoas bem-sucedidas, reconhecidas socialmente, com família, filhos e uma bela casa. Em sua fantasia infantil, o carro representava todo esse conjunto.
O deslumbramento permaneceu ao longo da vida até que, já maduro e gozando de boa condição financeira, resolveu adquirir uma Mercedes. Comprou um modelo esportivo conversível; enfim, o objeto de seu desejo.
Inicialmente sentiu-se empolgado. Porém, passados os primeiros dias, surgiu uma certa depressão, seguida de medo, de uma paranoia relacionada à possibilidade de ser assaltado e de um profundo desconforto ao dirigir.
Contou-me essa situação com espanto, sem entender o que acontecia. Afinal, imaginava que deveria estar muito feliz, talvez até eufórico, pela realização do antigo sonho.
Disse-lhe que o carro simbolizava, em sua infância, algo grandioso. Abrangia uma imensidão de elementos a ele associados, acrescidos da intensa vibração emocional característica das crianças e que não permanece da mesma forma na vida adulta.
Quando adquiriu o veículo, já havia conquistado aquilo que almejava em seus sonhos infantis: desfrutava de reconhecimento profissional, boa posição social, família constituída e uma moradia confortável.
Assim, a vibração da infância não reapareceu. A aquisição resumiu-se ao objeto em si, agora destituído dos inúmeros elementos que compunham sua fantasia. Essa experiência emocional manifestou-se como uma sensação de perda, desencadeando os sentimentos sombrios que o inundaram. Consciente agora das intrincadas tramas das fantasias, desfizeram-se as amarras e liberou-se o tráfego.
Quando os sentimentos são comunicados sem palavras
Um terceiro exemplo.
Adentra em meu consultório um paciente para uma sessão de análise. Deita-se no divã; eu me encontrava sentado atrás dele. Em seguida, com voz cavernosa e plena de raiva, diz cogitar matar-me. Relatava sentir intenso ódio dirigido a mim. Logo depois, levanta-se do divã e caminha para trás de minha poltrona, fora do meu alcance de visão.
Obviamente, fui tomado por grande apreensão e medo. Sem pensar, disse-lhe de bate-pronto:
— Falaremos sobre o meu medo ou sobre o seu?
Minha pergunta o redirecionou, por sorte, ao motivo de sua própria aflição. Retornou ao divã, deitou-se e expôs toda a sua angústia: estava ameaçado de perder o emprego e sentia-se aniquilado diante da possibilidade de que isso viesse a se efetivar.
A intensidade descrita acima representa uma situação extrema. Contudo, formas indiretas de comunicação do sofrimento são relativamente comuns na prática clínica. Muitas vezes, sentimentos que ainda não encontraram palavras acabam sendo transmitidos ao outro de maneiras diversas, exigindo atenção e escuta cuidadosas.
O sofrimento nem sempre está onde imaginamos
Situações como essas fazem-me pensar em algo que encontro repetidamente no trabalho com pessoas que procuram ajuda para seu sofrimento psíquico e emocional.
Nem sempre sofremos pelas razões que imaginamos.
A preocupação com uma cicatriz pode esconder o medo da morte.
A realização de um sonho pode trazer consigo o luto das fantasias que o sustentavam.
O ódio dirigido ao outro pode ocultar um medo de aniquilamento que ainda não encontrou palavras.
As pessoas frequentemente chegam falando de uma dor, mas é apenas aos poucos que outra questão, mais profunda, se torna visível.
Nos exemplos expostos, percebe-se como determinadas interpretações podem abrir novas possibilidades de compreensão, favorecendo rearranjos psíquicos e permitindo ao indivíduo reposicionar-se diante daquilo que o faz sofrer.
O papel da conversa no sofrimento emocional
A chamada "cura pela conversa", expressão historicamente associada ao nascimento da psicanálise, pode ser compreendida como a possibilidade de abrir novas perspectivas diante do sofrimento humano.
Quando se trata da saúde mental e da complexidade da vida psíquica, o objetivo não é apenas tornar consciente aquilo que estava oculto, mas permitir que a pessoa encontre uma maneira mais razoável de conduzir a própria vida.
Utilizando-me de uma formulação de Hipócrates:
"Aliviar a dor é uma obra divina."
Muitas vezes, aquilo que parecia insuportável não desaparece. O diagnóstico permanece, as perdas continuam existindo e a realidade não se altera.
O que pode mudar é a posição a partir da qual essa realidade é vivida.
Talvez seja essa uma das funções mais importantes da conversa: não eliminar as dores humanas, mas impedir que permaneçamos aprisionados à forma como as estávamos vivendo.
Certas conversas permanecem conosco por muitos anos. Não porque eliminem nossas dores, mas porque nos permitem habitá-las de outra maneira.
Às vezes, uma única frase não modifica a realidade. Mas pode transformar o lugar a partir do qual a realidade é vivida.
E, quando isso acontece, algo do sofrimento encontra alívio.
Psicoterapia, diálogo e ressignificação
Fui convidado pela Dra. Luciana Fortes, psicóloga e neuropsicóloga, para participar do Conversas que Curam, seu novo quadro no programa Em Dia.
Conversamos sobre a psicoterapia e seu papel na ressignificação de pensamentos e emoções — um tema que se aproxima de algumas das questões que desenvolvo neste texto: o que pode acontecer quando conseguimos olhar para uma experiência de outro modo e encontrar novas formas de lidar com aquilo que nos faz sofrer.
A transmissão será pela Rede Alto Tietê TV/SBT regional, canal 527 da Claro e YouTube. A data de exibição será divulgada em breve.
ALEXANDRE HORTA E SILVA PARTICIPA DO PROGRAMA EM DIA PARA DEBATER CULPA PARENTAL, LIMITES E EDUCAÇÃO DOS FILHOS
Alexandre Horta e Silva e a psicóloga e neuropsicóloga Luciana Fortes de Cerqueira participam do programa Em Dia, da VTV/SBT, para uma conversa sobre culpa parental, limites, frustração e os desafios contemporâneos da educação dos filhos.
Hoje, 20 de maio, às 17h30, Alexandre Horta e Silva e a psicóloga, terapeuta cognitivo-comportamental e neuropsicóloga Luciana Fortes de Cerqueira participam do programa Em Dia, apresentado por Flávia Lombardi, da VTV — afiliada do SBT.
A conversa terá como ponto de partida o texto “O fardo da maternidade: culpa, limites e responsabilidade na educação dos filhos”, publicado recentemente na seção Textos e Reflexões do site.
O debate abordará temas como culpa materna, parentalidade contemporânea, limites na educação dos filhos, tolerância à frustração, autoridade parental, desenvolvimento emocional infantil e os desafios psicológicos envolvidos na criação de crianças na atualidade.
A partir de diferentes perspectivas clínicas — Psiquiatria, Psicanálise, Terapia Cognitivo-Comportamental e Neuropsicologia —, a conversa discutirá questões relacionadas ao sofrimento psíquico parental, à dificuldade contemporânea de impor limites e à importância da construção gradual da autonomia emocional da criança.
A transmissão pode ser acompanhada pelo canal oficial do programa no YouTube: https://youtube.com/live/nhoR2DPLX3Y?feature=share
O FARDO DA MATERNIDADE: CULPA, LIMITES E RESPONSABILIDADE NA EDUCAÇÃO DOS FILHOS
A culpa materna tornou-se um dos eixos centrais na forma contemporânea de compreender o sofrimento infantil. Mas até que ponto essa lógica apaga o lugar da criança como sujeito? Uma reflexão sobre limites, frustração e responsabilidade na educação dos filhos.
Você é culpada até que se prove o contrário. Pobres mães.
Por que iniciar de forma tão desalentadora uma reflexão que pretende, na medida do possível, aliviar as imensas cargas lançadas sobre os ombros de quem cria e cuida dos filhos? Hoje, além do cuidado materno, as crianças frequentemente recebem uma série de intervenções e assessorias — entre elas, especialmente no campo psicológico, a psicoterapia.
Como queixa recorrente em consultório, ouço das mães que, em vez de haver uma ação mais direta sobre os filhos, elas próprias acabam sendo acusadas por falhas de conduta. O problema do filho, afinal, recairia sobre a mãe.
Uma delas relata:
“Tenho três filhos e, apesar de criá-los de forma bastante semelhante, sou acusada de cometer verdadeiros ‘pecados mortais’ com um deles, enquanto os outros estão bem. Cada um veio de um jeito muito diferente, mas, na argumentação do psicoterapeuta, sou eu quem ‘pisa na bola’ justamente com aquele que está em tratamento. Sinto-me acusada, em dívida, mesmo fazendo o máximo que posso. Parece coisa de filme policial americano: ‘você tem o direito de ficar calada, e tudo o que disser poderá ser usado contra você’. A diferença é que, na terapia, não posso — e nem quero — ficar calada. Mas falar parece piorar minha situação.”
A culpa que recai sobre a mãe
Essa lógica de culpabilização materna não se limita ao espaço terapêutico. Ela atravessa o ambiente familiar, circula entre gerações e se manifesta nas relações mais próximas. A mãe se vê frequentemente colocada sob julgamento — pelo pai da criança, por avós, por outras mulheres e, não raro, pela própria mãe.
A culpa não vem apenas da clínica; ela se distribui no tecido familiar e encontra respaldo em um discurso contemporâneo sobre maternidade e educação dos filhos que insiste em localizar na figura materna a origem privilegiada de tudo o que não vai bem.
Ela prossegue:
“Não me conformo em ser responsabilizada por tudo. Meu filho parece não ter qualquer implicação na própria vida. Quando quer algo, precisa ser na hora — coisas simples, como um brinquedo ou evitar uma tarefa escolar. Mesmo quando explico que não é possível naquele momento, ele insiste sem parar. A situação escala: grita, se joga no chão, repete o mesmo pedido incessantemente, até me levar à exaustão. Ouço frases como: ‘não quero fazer o que não gosto’ ou ‘por que não posso brincar, se é isso que quero agora?’.”
A criança como efeito dos pais
Ao retornar às conversas com a psicóloga, diz ouvir, com frequência, explicações que buscam compreender e contextualizar o comportamento do filho. Em alguns casos, pode haver uma tendência a interpretar esse comportamento predominantemente a seu favor, em uma cadeia de causas e efeitos nem sempre suficientemente consistente.
“Ele está assim porque tem uma prova e está tenso.”
Mas — questiona a mãe — não se deveria também ensiná-lo que, mesmo tenso, ele precisa cumprir suas responsabilidades?
O que se observa, em muitos contextos, é uma tendência a evitar qualquer frustração infantil, como se todo comportamento devesse ser compreendido e justificado — muitas vezes à custa de uma suposta falha materna.
Gradualmente, consolida-se uma leitura simplificada do desenvolvimento infantil, em que a criança aparece como resultado direto — e quase exclusivo — da ação dos pais, sobretudo da mãe. Apaga-se, assim, a dimensão própria do sujeito: sua forma singular de responder, de resistir, de desejar e de agir no mundo.
“Sou eu quem desencadeia tudo”, conclui.
“Onde está o meu filho nisso? Em que momento ele se constituirá como sujeito responsável?”
A recusa da frustração infantil
Aos poucos, ela relata ter sido capturada por essa lógica, tornando-se cada vez mais angustiada e sobrecarregada, tentando incessantemente ajustar-se para ser “uma boa mãe”.
“Tudo parece ter a ver comigo — e nada com as atitudes dele.”
E acrescenta:
“Tenho outros filhos, e não são assim. Pergunto-me: quando as coisas vão bem, não tenho mérito algum; mas, quando vão mal, a responsabilidade é inteiramente minha? Isso não é um absurdo?”
Observa também uma mudança na forma como as crianças são tratadas:
“Vejo-as sendo tratadas como bibelôs, sem hierarquia — adultos e crianças no mesmo nível, como se a experiência não contasse. Tornamo-nos adultos culpados até prova em contrário, e nisso há uma enorme distorção.”
A perda de autoridade na escola
A escola, por sua vez, também parece atravessada por essa transformação. A autoridade do professor torna-se cada vez mais frágil, e sua margem de intervenção, mais restrita.
Cresce o receio de corrigir, de frustrar e de exercer qualquer forma de contenção que possa ser interpretada como excessiva. Em algumas instituições, a caneta vermelha foi desaconselhada: “traumatiza” a criança. As correções passam a ser feitas com cautela, para não desencorajar.
Muitas vezes, as crianças crescem sem sequer reconhecer claramente seus próprios erros.
Aos poucos, a função educativa vai sendo reduzida a uma dimensão quase exclusivamente técnica, como se ensinar pudesse prescindir da transmissão de limites, de referências e de diferenças entre posições.
Hoje, diz ela, há protocolos rígidos sobre o que pode ou não ser feito.
“Se realizarmos uma contenção física, corre-se o risco de ser criminalizado. Situações simples, antes resolvidas com um gesto firme, agora são interpretadas como agressão. E as crianças sabem disso — e se utilizam disso.”
Contenção não é sinônimo de violência
Relata um episódio:
“Encontrei meu filho de 10 anos batendo na irmã de seis. Ao repreendê-lo, ele respondeu que, outro dia, eu o havia puxado pelo braço — e perguntou por que eu podia fazer isso e ele não. Mas não se tratava da mesma coisa: eu o contive; ele estava agredindo a irmã.”
Ao levar o caso ao psicoterapeuta, ouviu que havia dado um “péssimo exemplo”.
“Disseram que eu deveria ter conversado. Mas eu já havia conversado inúmeras vezes, sem efeito. Não podia permitir que ele machucasse a irmã. A intervenção física, no caso, foi contenção — não agressão.”
Confunde-se, com frequência, contenção com violência, como se qualquer intervenção corporal implicasse necessariamente agressão.
No entanto, a contenção, em determinadas situações específicas, pode exercer uma função organizadora, oferecendo à criança um limite concreto diante de algo que, naquele momento, ela ainda não consegue regular por si mesma.
E conclui:
“As pessoas não são iguais. Para algumas crianças, a palavra basta; para outras, o tom precisa mudar; e há situações em que a palavra se mostra inócua. Existem também medidas corretivas — como retirar algo desejado — que podem funcionar, mas que, em certos casos, apenas agravam a situação, como um remédio que, em vez de aliviar a dor, a intensifica.”
O que está em jogo na educação dos filhos hoje
excesso de culpabilização materna
dificuldade de impor limites
recusa da frustração infantil
apagamento da responsabilidade da criança
Limites, frustração e a constituição do sujeito
Educar uma criança implica, inevitavelmente, introduzi-la à experiência da frustração. Frustrar não é falhar, assim como estabelecer limites na educação dos filhos não é exercer violência.
Ao contrário: é justamente na presença de referências claras — ainda que, por vezes, difíceis de sustentar — que a criança pode, pouco a pouco, se situar diante do outro e de si mesma.
Isso não significa atribuir à criança uma responsabilidade plena e precoce, tampouco eximir os adultos de sua função. Significa, antes, recolocar cada um em seu lugar: ao adulto, a responsabilidade de sustentar um campo minimamente estruturado; à criança, a possibilidade de, gradualmente, implicar-se em seus próprios atos.
Quando toda dificuldade é reconduzida a uma falha parental, corre-se o risco de produzir um duplo efeito: sobrecarregar os pais e, ao mesmo tempo, esvaziar a criança de sua condição de sujeito.
Sem a experiência do limite — elemento central na educação dos filhos —, não há responsabilização possível. E, sem isso, aquilo que poderia se constituir como processo de crescimento tende a se transformar em um circuito de repetição, cada vez mais difícil de interromper.
Em situações como essas, não é incomum que os pais se sintam desautorizados, confusos ou mesmo culpados por sustentar posições que, intuitivamente, reconhecem como necessárias.
Nesses momentos, pode ser importante contar com um espaço de escuta que não reforce automaticamente a lógica da culpabilização, mas que permita recolocar as questões em sua complexidade. Um interlocutor experiente, capaz de sustentar esse nível de leitura, pode não apenas oferecer respaldo, mas também ajudar a construir, junto aos pais, caminhos possíveis — sem simplificações e sem respostas prontas.